Ricardo Giuliani

Textos

Crônicas

Textos de observação cotidiana, tempo, memória e cidade.

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A farsa: entre Flávio Bolsonaro e Marx

No Pacaembu, sábado passado, um homem preso falou sem estar presente. A voz que saía das caixas de som pertencia a um algoritmo treinado para imitar Jair Bolsonaro, e a própria gravação, antes de qualquer outra coisa, sentiu necessidade de se explicar: "isso que vocês estão vendo aqui não sou eu, é uma simulação da minha imagem e da minha voz feita com inteligência artificial". Ninguém precisou de Marx para notar o que ali se anunciava. Eles sendo eles! Marx nos oferece a chave no 18 de Brumário, escrito diante de outro sobrinho que herdava outro nome. Eis a história condenada a repetir seus grandes episódios, primeiro como tragédia, depois…

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A síndrome da fala mansa

Norato falava baixo. Essa era, entre os que o cercavam há anos, a primeira coisa que se aprendia sobre ele, antes de qualquer sala de aula, antes de qualquer banca de correção de redação em que sentava como avaliador convidado. A voz…

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Depois dela

O boné torto me chamou a atenção. Esquina da Independência, skate atravessado na mochila, puxando um ombro mais que o outro. Calça larga, barriga à mostra. Quarenta e tantos anos, é o que imagino. Rugas finas no canto dos olhos atrás do…

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Na padaria, quem rouba quem?

Vou à padaria uma vez por semana, sempre antes das oito da manhã. A senhora do balcão já chegou há horas, sempre pronta pra brigar com a máquina de pesar pão e imprimir código de barras. Os óculos escorregam, ela ajusta, aperta…

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O Fedor de Quem Faz

No elevador do prédio novo, ninguém cheira a nada. É a primeira coisa que se nota, se alguém ainda se dá ao trabalho de notar. O ar ali dentro tem o mesmo perfume neutro do saguão, que é o mesmo do corredor,…

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O Analista de Bagé

O consultório do analista de Bagé cheira a erva mate requentada e a bosta de cavalo que entra pela janela junto com o vento minuano. Na parede, atrás da cadeira dele, uma foto emoldurada de Luiz Fernando Veríssimo — vestido com a…

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Quem só sabe direito, nem mesmo direito sabe

Atribuem a J.J.Gomes Canotilho a frase “quem só sabe direito, nem mesmo direito sabe”; preciso, certo, atordoante! O mestre português, o Pai da Constituição Dirigente, advogava por vida pulsante no mundo dos juristas; transformamo-nos numa classe de pessoas que falamos para nós…

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Estética e “gente de bem”

Apreensão pelos sentidos é Estética, do grego aisthesis. Percebemo-nos adoecidos, embrutecidos por lugares-comuns, cantos de sereia e verdades sonantes. Com certezas e crenças, culpas e inocências, julgamos o Outro com a naturalidade de quase deuses; aplainamos a terra, alimentamo-nos de insólitos e…

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