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Ricardo Giuliani

Crônicas

Na padaria, quem rouba quem?

Vou à padaria uma vez por semana, sempre antes das oito da manhã. A senhora do balcão já chegou há horas, sempre pronta pra brigar com a máquina de pesar pão e imprimir código de barras. Os óculos escorregam, ela ajusta, aperta o botão errado, tenta mais uma vez. Grudadas na própria máquina insuportável estão as etiquetas com as impressões erradas. Setenta anos não perdoam geringonças digitais, nem essa fila de números pequenos que a máquina exige decifrados por quem saiu de casa às quatro da madrugada.

Abasteço ali. Levo pão de vários tipos: cacetinho, baguete, pão de forma português e o meu luxo secreto, o pão de fermentação natural que só compro uma vez por mês. Ela pesa cada um, cola a etiqueta, entrega o saco com aquele sorriso de sobrevivente. Essa rotina é a que segue e segue e segue. Não sei se Camus se inspirou nalguma padaria de Paris para escrever O Mito de Sísifo.

Dias desses, já em casa, fui guardar o pão no freezer e vi a etiqueta da baguete: vinte e três reais. Quem nunca chegou em casa e descobriu que pagou a mais no pão? A raiva sobe antes de você decidir direito com quem ficar puto. Fiquei puto comigo, por não ter conferido. Fiquei puto com a senhora, um segundo injusto que já nasceu envergonhado. Mas que merda, como não conferi essa bosta, era eu sendo eu mesmo contra mim mesmo.

Fui guardar o outro pacote, minha joia mensal, e vi a etiqueta do pão de fermentação natural estampando quatro reais. Putz, pensei, roubei a velha! Que sensação ambígua: pagar menos do que o devido e sentir, por um instante besta, a vitória indevida, o sorriso de quem ganhou na sena sem nem ter apostado.

A pergunta não fechou. Quem rouba, afinal? Eu, que levei por quatro reais o que valia mais? Ou ela, que aos quase setenta anos madruga pra empurrar baguete a 23 reais e no fim do mês recebe salário, não lucro? O lucro mora noutro lugar, na alcova de quem nunca deve ter pesado um pão na vida.

Hoje, quando a encontro no balcão, dou bom dia com sorriso rasgado e confiro o preço do pão. Não por desconfiança. Por cuidado, minto pra mim. Ela madruga, erra o código de barras, aguenta o meu humor forçado de todas as segundas-feiras.