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Ricardo Giuliani

Crônicas

Classemerdiolite

Memória acorda antes das cinco, no conjunto habitacional que o Estado chamou de Sonho e ela chama de prestação ou de “minha casa minha dívida”. Doze horas de trabalho esperam por ela; o ônibus lotado e o cartão de ponto sempre atento. Não lembra do nome do vírus que lhe tirou a mãe num março indistinguível dos outros, embora lembre o valor exato do salário-mínimo em 2019 e o quanto ele vale agora.

Memória é triste na vida e alegre nas redes, duas biografias que não se cruzam. Não sabe dizer quantos grupos de WhatsApp integra, perdeu a conta entre o da igreja, o do condomínio, o da escola das crianças, o da prima que mora em Portugal e aquele que ninguém mais lembra por que foi criado. Publica bom dia com flor amarela, publica frase de superação copiada sem crédito, sorri em vídeo de quinze segundos com filtro que ilumina o escuro da vida.

A doença tem nome técnico, ainda que nenhum manual a catalogue: classemerdiolite. Transmite-se por um agente que a ciência não isolou, que não aparece nem em exame de sangue, que se propaga por grupos de família no WhatsApp e por vídeos de quinze segundos prometendo a verdade que a imprensa comuna esconde. O sintoma inicial é sempre o mesmo: um apagão seletivo, elétrico, que suprime datas, mortos, promessas de campanha, e mantém intactos apenas o ódio recente, o rancor de longa duração e a rapidez de um Trinity no velho oeste, dedo no gatilho e estampidos de lacração.

A posologia é rigorosa. Toma-se em jejum, ao acordar, antes do café, na primeira rolagem do polegar. Reforça-se ao longo do dia, doses menores e frequentes, entre uma tarefa e outra, sempre que o aplicativo vibra e pede atenção. A dose máxima recomendada não existe, porque ninguém a testou, e o efeito colateral mais comum é a convicção. Contraindicada para quem ainda verifica fonte, indicada sobretudo para quem já decidiu o que quer que seja verdade antes de qualquer pergunta.

Memória odeia a pobreza com a fúria de quem a habita todos os dias, ama a riqueza com a devoção de quem só a avista pelo lado de fora dos vidros blindados. Pobre de espírito, pobre de bens, rica apenas naquilo que deseja e, menos ela, todos sabem que nunca terá.

O IBGE a classifica como classe C, categoria que desconhece e que, se conhecesse, recusaria com indignação. No fundo se imagina classe A adiada, apenas atrasada num cronograma que a vida lhe deve, afinal são 12 horas de trabalho no dia e em seis dias por um de folga e, sempre que pode, fala mal dos políticos que querem foder o povo com essa tal escala 5×2.

É contra o imposto sobre grandes fortunas. Não tem fortuna, não terá fortuna, ainda assim protege a fortuna alheia com o mesmo zelo com que sonha a própria, tardia, fortuna que acredita, “com a fé do Senhor”, um dia chegará. É a lealdade ao nunca possuído, eis o núcleo exato da classemerdiolite.

Chama Lula de cachaceiro e de nove dedos, esquecida de que a fome afastada da mesa dos pais pelo Bolsa Família foi real, esquecida também de que a amnésia seletiva não escolhe por acaso o que apaga. Vota em Bolsonaro porque ele prometeu ordem no ano em que mais precisou de explicação para o caixão da mãe, e a ordem prometida chegou embrulhada em negacionismo, o mesmo que multiplicou os caixões. “Não sou coveiro”, adorava aquela presença de espírito, aquela força do atleta que somente pegaria uma gripezinha.

Seu amigo empresário, com quem trepava de vez em quando, fez fortuna nos governos Lula, tomou dinheiro do BNDES a juros que o mercado jamais ofereceria, expandiu a empresa, contratou, prosperou, também vota em Bolsonaro. Entre um cafezinho e outro chama Lula de comuna, no mesmo escritório erguido com subsídio público que sinceramente jura odiar. Memória o escuta e concorda. A classemerdiolite não distingue patrão de empregado.

A eleição chega, Bolsonaro vence. A notícia se espalha pelos mesmos grupos que a fizeram esquecer da sua caminhada, do ônibus, do cartão ponto. Não há comemoração compatível com o tamanho do apagão, há apenas o alívio de quem finalmente descansa de lembrar. Nas semanas seguintes, os sintomas que pareciam exclusivamente brasileiros aparecem em Lisboa, em Roma, em Buenos Aires, cidades que juravam imunidade pela distância ou pela história. A classemerdiolite atravessa fronteiras, sem sotaque, sem precisar de tradução, é epidemia.

Existe cura. Foi encontrada, descartada, porque toda cura exige que alguém, primeiro, concorde em estar doente. Memória dorme depois da meia-noite, o polegar ainda deslizando a tela, rindo sozinha no escuro do quarto que o Estado chamou de Sonho. Amanhã, bem, cumpridora de suas obrigações, acordará antes das cinco.