Norato falava baixo. Essa era, entre os que o cercavam há anos, a primeira coisa que se aprendia sobre ele, antes de qualquer sala de aula, antes de qualquer banca de correção de redação em que sentava como avaliador convidado. A voz baixa produzia um efeito medido, quase geométrico. Alunos, colegas e plateias de auditório de escola pública se inclinavam um pouco para ouvir, o corpo do interlocutor rendido antes da frase terminar.
Cada decisão saía pronta, lapidada, sem verbos no condicional. Diante de um microfone, nas raras vezes em que participava de programas locais sobre língua portuguesa ou discursava em formaturas, no instante em que as luzes se acendiam, as mãos buscavam o copo de água, a folha impressa, a lapela do paletó emprestado para a ocasião. A voz sempre mansa, enquanto as mãos contavam outra história, e ninguém, além de mim, parecia disposto a ouvi-la.
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Norato vinha de família de classe média, pai contador aposentado, mãe professora primária, casa de dois quartos num bairro sem pretensão. Formou-se em direito por decisão do pai, que via na profissão um degrau que a família não tinha subido. Cursou os cinco anos com desempenho impecável, monografia premiada, estágio num escritório de porte médio.
Nunca advogou. Recusou, uma a uma, as propostas que recebeu ao final do curso, e escolheu o concurso para o magistério estadual, disciplina de português, ensino médio. A justificativa que dava, quando alguém insistia em perguntar, vinha sempre na mesma formulação: advogado é sempre julgado junto com o cliente, carrega no corpo a causa que defende, perde quando o cliente perde, e Norato não suportava julgamento, tampouco divergência explícita, o embate direto de uma sustentação oral em que a parte contrária tem o direito simétrico de refutar.
Na sala de aula a hierarquia protegia essa fragilidade. O professor avalia, o aluno é avaliado, a divergência, quando ocorre, chega mediada por uma nota, por um recurso escrito, por um prazo regimental, nunca pelo corpo a corpo da tribuna. Norato trocou o tribunal pela lousa porque na lousa quem julga é sempre ele, e a vírgula errada de um aluno rende o mesmo prazer de controle que a petição mal fundamentada de um adversário renderia, sem o risco de uma réplica que o exponha.
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Houve Aldemar antes, ainda na faculdade. Professor titular de direito civil, orientador da monografia premiada, homem que assinou a carta que garantiu a Norato o primeiro estágio, num tempo em que uma carta ainda decidia um começo de carreira. Vinte anos depois, já professor de escola pública, Norato reuniu numa tarde inteira as evidências de um plágio cometido por Aldemar na juventude acadêmica, um artigo de 1987 copiado quase à letra de um autor menor, publicado numa revista já extinta. Entregou o dossiê a um portal de crítica acadêmica, sem remetente, e comentou o episódio, semanas depois, num jantar, com a mesma serenidade de quem descreve uma sinaleira que abre e fecha. A frase que usou permanece e me atordoa: “rigor não escolhe quem beneficia”.
Houve Miriã depois. Diretora da escola que o contratou quando sua licenciatura complementar ainda tramitava, incompleta, na secretaria estadual, mulher que cobriu, durante dois anos, essa pendência burocrática que poderia ter custado a Norato o cargo. Anos depois, os dois disputaram a mesma vaga num concurso estadual de projetos de intervenção pedagógica. Norato reconheceu, no texto que Miriã submeteu à banca, parágrafos inteiros de um projeto publicado cinco anos antes por outra rede de ensino. Fez o cotejo linha a linha, os dois textos lado a lado, e enviou o confronto, sem assinar, à comissão avaliadora. Miriã foi desclassificada, perdeu o cargo de direção pouco depois, e com ele o prestígio construído em duas décadas de rede pública.
Houve, mais recentemente, o próprio pai, ainda que de modo distinto. Norato jamais o denunciou publicamente, guardava-lhe respeito de outra ordem, todavia narrava, a quem se dispusesse a ouvir, episódios da infância em que o pai falhara, com detalhes de data e hora que nenhuma memória comum preserva com tal precisão, entre eles a insistência que o empurrou para um curso de direito que ele nunca chegou a exercer. A denúncia, nesses casos, não saía como acusação, saía como análise minuciosa de texto, o filho ocupando diante do pai a mesma posição que ocupava diante de uma redação mal escrita, apontando cada desvio como quem aponta um erro de concordância.
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O padrão, observado de fora, tem estrutura. Todos os denunciados protegeram Norato num momento de fragilidade real. Todos foram destruídos no exato instante em que deixaram de ser úteis à posição que ele ocupava. Não há, em nenhum dos episódios, sinal de culpa anterior ao ato nem posterior a ele. Há avaliação, cálculo, e uma convicção inabalável de que a justiça exercida coincidia, ponto a ponto, com a verdade dos fatos.
Falei uma vez com um analista sobre o caso, sem nomear ninguém, disfarçando a matéria como curiosidade teórica. Ele ouviu a descrição do tremor, da voz mansa, do rigor sobre a vírgula alheia, da fuga antiga de um tribunal em favor de uma sala de aula, da conta detalhada de dívidas cobradas sem aviso, e disse uma frase que ficou:
— Isso tem estrutura de neurose obsessiva. O sujeito não duvida do mundo. Duvida de si, e transforma a dúvida em ritual sobre o mundo. Controla o detalhe porque não controla o núcleo. A escolha de uma profissão em que julga sem nunca ser julgado, em que corrige sem nunca precisar sustentar a correção diante de um contraditório simétrico, é sintoma antes de ser vocação. A dívida simbólica com quem o protegeu não é esquecida, é hipertrofiada, cultivada como ferida que precisa permanecer aberta até o dia do ajuste de contas. E o ajuste de contas chega sempre disfarçado de rigor filológico, porque a intelectualização é a defesa mestra desse quadro. O afeto fica isolado do ato. Ele destrói sem raiva aparente, e por isso mesmo destrói mais fundo.
Perguntei se a fala mansa fazia parte do quadro.
— Faz. A voz é o último objeto a ser domesticado. As mãos ainda escapam porque o corpo guarda um resto que a fala não alcança. Enquanto a voz permanecer sob controle, o sujeito segue convencido de que governa a cena. O dia em que a voz também tremer é o dia em que ele vai precisar de ajuda, e é provável que só aceite procurá-la depois de destruir alguém que não devia.
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Imagino, às vezes, a cena que jamais aconteceu. Sentado à mesa, digo a ele, sem rodeios: você trocou o tribunal pela sala de aula para nunca mais ser julgado, e agora repete, com quem te protege, o gesto que talvez tenha sofrido primeiro, de alguém que devia proteger e não protegeu. Ele não se altera. Levanta uma sobrancelha, dobra o guardanapo, e responde com aquela voz que nunca sobe de tom:
— Você está descrevendo uma estrutura ou está me diagnosticando.
— As duas coisas — digo, no diálogo que só existe na minha cabeça.
— Então marque hora com quem sabe diagnosticar — responde ele — e sirva-se do vinho.
Na cena imaginada, insisto. Digo que o tremor nas mãos, diante das câmeras raras, é a fissura por onde escapa o que a voz mansa tenta calar há décadas. Digo a palavra dúvida, digo a palavra dívida, digo que as duas rimam por acaso e por estrutura. Ele escuta com a atenção cortês de quem avalia um argumento alheio antes de refutá-lo, e no fim apenas sorri, um sorriso sem ironia, genuíno na sua frieza, e diz que agradece a preocupação.
Na realidade a cena não acontece. Janto com ele, ouço o relato das redações do concurso estadual que avaliara na semana anterior, cada vírgula reposicionada com o rigor de quem defende uma fronteira em pleno estado de guerra, do velho professor de direito civil cujas cartas antigas em breve virão a público. Falava disso com a serenidade de quem comenta o vinho, não havia culpa na frase, trazia cálculo, a avaliação fria do que ainda lhe seria útil.
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Foi então que pensei, com alguma convicção, que era preciso dizer-lhe alguma coisa. Não sobre Aldemar. Sobre ele mesmo.
O problema não era o conteúdo, era a forma de dizer a um homem acostumado a corrigir a forma dos outros que a própria forma precisava de exame. Ensaiei frases inteiras no caminho até ali, todas descartadas antes de chegarem à mesa. Dizer-lhe que talvez lhe fizesse bem conversar com alguém soaria, a seus ouvidos, acusação de fraqueza, e fraqueza era precisamente o que as mãos trêmulas já denunciavam sem testemunhas adicionais.
Recorri, por fim, a um estratagema covarde. Mencionei, quase em tom de coincidência de calendário, um analista novo na cidade, indicado por conhecidos comuns, especializado em quadros de ansiedade que o corpo manifesta e somente manifesta. Disse o nome do profissional, sobrenome francês, comum o bastante para não soar estranho num consultório da zona sul, raro o bastante para produzir, no rosto de Norato, uma pausa que jantar nenhum tinha produzido até então.
— Lacan — repetiu ele, o garfo suspenso a meio caminho do prato. — Você está me chamando de louco com erudição.
— Não era essa a intenção — respondi, e percebi, ao dizer, que talvez fosse exatamente essa a intenção, disfarçada de coincidência onomástica, recurso de quem não teve coragem de nomear o problema sem escondê-lo atrás do nome de outro.
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Norato recompôs a voz mansa, guardou as mãos sob a mesa, mudou de assunto com a elegância de sempre. Retomou as redações, a vírgula, o velho professor que em breve deixaria de ser protegido. A noite seguiu, nada havia sido dito de fato, apenas insinuado, e a insinuação, no reino em que Norato governa com mãos trêmulas e voz mansa, vale menos que uma vírgula fora do lugar.
Volto para casa sabendo que a frase certa ainda não existe. Sei também, agora com mais clareza, que existe um próximo protetor na fila, alguém que hoje cobre para Norato uma fraqueza qualquer, confiante de que a dívida será honrada. Esse alguém ainda não sabe que a dívida simbólica, nesse território, corre em sentido inverso ao esperado: quanto maior o favor prestado, maior o risco de vir a ser, um dia, a prova material do próximo rigor.