A cidade tem um prédio só, e lá tem um elevador, e o elevador tem um espelho.
As casas se espalham baixas, quintais com cachorros presos, roupas no varal, e no meio disso ergue-se o único edifício capaz de levantar gente do chão, sete andares, reboco amarelado, um porteiro que nunca sorri para ninguém e, na hora da foto, sorri para todo mundo.
A fila começa antes do sol. Crianças de uniforme, senhoras de touca de banho por baixo do casaco, homens de terno alugado só para aquilo, esperando a vez de entrar na caixa de metal e apertar o botão do sétimo andar. Não porque precisem subir, sobem por conta do espelho do elevador, que lhes disse, é o único espelho da cidade que devolve alguém digno de ser mostrado; pelo menos é assim que todos pensam.
Uma vez por ano chega um técnico da capital, uniforme cinza, maleta de ferramentas, sobe até a casa de máquinas no telhado e recalibra o contrapeso do cabo. O elevador está pesado, diz sempre, sem espanto.
O espelho engrossa devagar, camada sobre camada de gente que já passou por ali, e o vidro que hoje reflete tem mais fundo do que tinha há dez anos, mais fumaça presa atrás do próprio brilho, e é essa espessura que pesa no cabo, a estrutura que liga o céu e a terra, que exige contrapeso novo, que traz o homem de uniforme cinza todo mês de março, e olha que já estão pensando em diminuir a frequência para duas vezes ao ano.
O clique acontece entre o quarto e o quinto andar. A luz do fluorescente cai num ângulo que apaga a olheira e alarga o queixo, o vidro mostra uma versão que a pessoa nunca encontra em casa – outros diriam que não encontra em si mesma -, nem no espelho do banheiro, no retrovisor do ônibus, e muito menos no fundo dos olhos do amado ou de quem desejamos que nos veja.
As pessoas sobem sozinhas, o instante pede solidão para funcionar, e todos, talvez só nesta situação, cumprem zelosamente a lei dos humanos.
No corredor do sétimo andar, antes de descer, cada um examina a tela, aumenta o rosto com dois dedos, procura o defeito que a luz ainda não corrigiu. Repete a subida se for preciso, em último grau usa um daqueles filtros que o algoritmo disponibiliza e já organiza o ser para o universo dos julgamentos desumanos. Há quem suba três, quatro vezes no mesmo dia, o porteiro marca o cartão, o gasto é da alma.
A foto sozinha não sustenta ninguém. Precisa sair do prédio, entrar na rede, esperar o juízo silencioso do coraçãozinho vermelho, uma mãozinha com o dedinho pra cima já serve. Sentados na escada do edifício, antes de ir para casa, todos publicam dali mesmo, sinal fraco de internet, três barrinhas subindo e descendo como respiração. Enquanto o número não estabiliza, ninguém tira a bunda do degrau gelado feito de pedra e cimento e silêncio.
Dizem, e ninguém garante a origem do dito, que ao chegar num certo número de likes a pessoa para de fazer sombra. Sim, pode bater o sol que bater, pode vir da direção que vier, a sombra deixa de existir; quantos coraçõezinhos precisam pra isso, já disse e confirmo, ninguém sabe. Primeiro é o sol do meio-dia que já não desenha o contorno do ser na calçada, depois é a luz da sala à noite, depois é a lembrança dos vizinhos, que cumprimentam de longe um nome que não conseguem mais encaixar num rosto. Ninguém percebe o dia exato em que isso acontece com um filho, um vizinho, um antigo colega de escola; depois, só bem depois, é que se percebe, a falta do ser, que se vai com sombra, com alma e tudo.
A cidade perde gente todo mês, as casas baixas vão ficando vazias, os quintais sem cachorro, os varais sem roupa. O café da esquina, toalhinha xadrez e balcão de fórmica, queridinho, diziam alguns, fechou faz tempo; era o ponto de encontro que migrou pra fila do elevador, onde o encontro é consigo mesmo, dura menos, exige menos, não pede entreolhares, machuca menos.
Não há mais casal dividindo copo em mesa de bar. Há fileiras de gente sozinha, multidões de seres solitários, cultivando a própria imagem, esperando que isso baste.
A farmácia da praça triplicou a prateleira de remédio para cabeça e mesmo assim falta, o caminhão chega e o estoque zera em dois dias. Ao lado, onde era loja de tecido, abriu um sexshop, luz vermelha na vitrine, manequim sem rosto vestido com couro. Ninguém entra de dia. À noite as duas portas ficam acesas lado a lado, tratando do mesmo vazio por caminhos diferentes.
À noite as janelas acendem uma por uma com o brilho azul da tela erguida. Cada pessoa revê a própria publicação no escuro do quarto, atualizando a contagem com o polegar, comparando o número de hoje com o de ontem, buscando prova de que existiu o dia e que existiu alguém do outro lado para confirmar que o dia, de fato, existiu. Fora da tela o dia já foi embora.
Ninguém no elevador confunde a pessoa do espelho com a pessoa que respira ali dentro. Ninguém confunde o coraçãozinho vermelho com afeto de verdade. Sobe sabendo disso, publica sabendo disso, requebra e faz biquinho sabendo que nada disso é vida real, e é dessa mentira dupla que se precisa todo santo dia para não desaparecer de vez, embora seja exatamente essa mentira, gorda de uso, que engrossa o espelho lá em cima aos poucos e tira a sombra de quem mais confia nela.
De manhã a fila já está formada outra vez, mesma gente, mesmo prédio. O técnico de uniforme cinza voltará em março. A farmácia abre antes da fila, o sexshop abre depois, e as três portas dividem entre si o que restou da cidade.