No Pacaembu, sábado passado, um homem preso falou sem estar presente. A voz que saía das caixas de som pertencia a um algoritmo treinado para imitar Jair Bolsonaro, e a própria gravação, antes de qualquer outra coisa, sentiu necessidade de se explicar: “isso que vocês estão vendo aqui não sou eu, é uma simulação da minha imagem e da minha voz feita com inteligência artificial”. Ninguém precisou de Marx para notar o que ali se anunciava. Eles sendo eles!
Marx nos oferece a chave no 18 de Brumário, escrito diante de outro sobrinho que herdava outro nome. Eis a história condenada a repetir seus grandes episódios, primeiro como tragédia, depois como farsa. Em 2018 houve, se quisermos manter o rigor da fórmula, tragédia: uma facada real, um corpo real, um “outsider” que rompia a gramática da política institucional com a violência crua de quem não tinha nada a perder. Em 2026 há farsa em sentido quase literal, porque o patriarca já não pode nem comparecer ao próprio palco, comparece por procuração digital, com efeitos especiais próprios daqueles que se nutrem de mentira e armação; ausência vira efeito especial de mais um non sense bolsonariano.
A fórmula, porém, exige um degrau intermediário que a crônica brasileira raramente desce, o precedente alemão de 1932 e 1933, no qual a tragédia se revela, antes de tudo, cálculo de gente convencida de ser mais esperta que a própria história. Franz von Papen, chanceler conservador deposto por Kurt von Schleicher, articulou com o círculo de Hindenburg a nomeação de Hitler justamente para neutralizá-lo, um gabinete de onze ministros com apenas dois nazistas, cercado de conservadores e do próprio Papen na vice-chancelaria. A um interlocutor cético sobre a manobra, respondeu com a frase que resume todo o gênero da tragédia disfarçada de tática: “Nós o contratamos”. E completou, seguro da confiança de Hindenburg: “Em dois meses teremos empurrado Hitler para um canto, a ponto de fazê-lo guinchar”. Dois meses depois o Reichstag ardia e o Ato de Habilitação liquidava o que restava da Constituição de Weimar. Von Papen não domesticou Hitler, emprestou-lhe a última peça de legitimidade institucional de que o nazismo ainda precisava para deixar de ser movimento de rua e virar Estado Total.
A ironia do cálculo errado não poupou sequer quem tinha motivo mais imediato para temer. No dia em que Hitler assumiu, a diretoria do Central-Verein, a principal organização dos judeus alemães, publicou nota afirmando estar “convencida de que ninguém ousará violar nossos direitos constitucionais”. Dias depois, o jornal ortodoxo Der Israelit registrava esperança semelhante, em edição de 2 de fevereiro de 1933: mesmo que Hitler quisesse retirar dos judeus alemães seus direitos ou trancá-los em guetos, Hindenburg e o Partido de Centro católico certamente o impediriam. O historiador Michael Brenner, ao reconstituir esse quadro em conferência de 2022 publicada pelo German Historical Institute, é cuidadoso ao lembrar que o julgamento retrospectivo é fácil demais, e que ninguém em fevereiro de 1933 imaginava Auschwitz como horizonte. Justamente por isso o episódio interessa aqui não como acusação – esporte da moda nesta quadra história -, e sim como advertência sobre a distância entre convicção e previsão. Guardadas todas as proporções, sem equiparar eleição a genocídio, elites calculistas e potenciais vítimas podem errar pela mesma razão, a de medir o adversário pelas regras do jogo anterior. Digo alguma novidade?
O contraste entre os dois lançamentos é instrutivo justamente onde parece redundante. Em 2018, Bolsonaro chegava como corpo estranho ao sistema, hospitalizado, fora dos debates, carregado por uma onda de raiva antipetista que a Lava Jato havia preparado durante quatro anos e que a prisão de Lula, decidida por um juiz que depois viraria ministro de Bolsonaro, tornou irreversível. A extrema direita brasileira nascia ali com aparência de acidente histórico, de erupção espontânea de um eleitorado exausto.
Em 2026, Flávio Bolsonaro não é acidente nenhum. É herança anunciada, escolhida em família, escolha do Clã, ungida pelo pai antes mesmo de qualquer convenção, apresentada ao país num evento coreografado com vídeo de Netanyahu, recado de Nikolas Ferreira e a bênção rugida de Javier Milei, que aproveitou o microfone para chamar Alexandre de Moraes de “lixo careca” e prometer, em nome da liberdade, a destruição do que ele chama de socialismo latino-americano. Estamos diante de um protocolo.
É aqui que a nuance conta, e conta duplamente. Flávio, no próprio discurso, chamou o pai de “vítima da maior farsa que esse país já presenciou”. A palavra escolhida por ele foi exatamente farsa. Só que o sentido que Marx dá ao termo é o oposto do sentido que Flávio pretendia. Para o filho 01, farsa é a perseguição judicial que teria vitimado o pai. Para quem olha de fora, farsa é a montagem em si, o avatar de inteligência artificial substituindo o corpo ausente, o líder estrangeiro xingando um ministro do Supremo em nome da soberania nacional de outro país, a viúva política gravando um vídeo de saudade em vez de discursar ao vivo e o apoio do sanguinário de Gaza.
O drama de 2018 se transfigura, em 2026, em um espetáculo que já não finge não sabê-lo. A farsa deixou de ser metáfora crítica para virar linguagem nativa do próprio movimento, que a usa para se autodescrever como vítima justamente quando produz sua encenação mais desavergonhada.
Falta ainda o elemento que a crônica política costuma tratar de forma apressada, quando não o esquece de todo: o papel da direita liberal na viabilização dessa história.
Em 2018, o bolsonarismo bruto precisou de um selo de responsabilidade “fiscal” para atravessar a fronteira que separava a fúria das ruas em 2013 do apoio da Faria Lima, do agronegócio e do mercado financeiro. Esse selo teve nome, Paulo Guedes, e a função clara de garantir aos investidores que por trás do escatológico haveria reforma da previdência, ajuste fiscal, privatizações. A direita liberal não elegeu Bolsonaro sozinha, porém emprestou-lhe a legitimidade que faltava para transformar rejeição em governabilidade. Fez isso calculando que domesticaria o instrumento, no mesmo espírito, guardadas as proporções, com que Papen calculou que domesticaria Hitler colocando-o num gabinete de maioria conservadora.
Pois bem, a mesma direita liberal estava lá, de novo, no Pacaembu. Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes; chegaram no primeiro ato, não no epílogo de negociação que caracterizou a adesão tardia de 2018. Milei, que representa perante o mundo financeiro a versão mais pura do liberalismo econômico estúpido como programa de choque, ocupou o lugar de avalista internacional que Guedes ocupara anteriormente. A promessa é a mesma de sempre: ajuste, mercado, ordem econômica, não-estado, e em troca a legitimação de um projeto que já demonstrou, em texto e em ato, sua disposição de romper com as regras do jogo institucional quando perde eleições.
A diferença é que agora ninguém pode alegar ingenuidade. Papen também não podia, rigorosamente falando, alegar ignorância sobre o que Hitler pregava havia dez anos, e mesmo assim confiou em dois meses de gabinete para conter o incontrolável. A direita liberal brasileira de 2018 podia ainda dizer que não sabia no que aquilo ia dar. A de 2026 sabe exatamente no que deu, e voltou ao mesmo palco assim mesmo, o que transforma o gesto de cálculo tático em prova de convicção.
Sobra, então, a segunda fórmula de Marx, menos citada e mais precisa que a primeira: os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem, não em circunstâncias escolhidas por eles, e sim em circunstâncias diretamente encontradas, dadas e transmitidas pelo passado. A direita liberal brasileira acreditou, em 2018, que usava o bolsonarismo para destravar uma agenda econômica represada há décadas. O bolsonarismo, por sua vez, usou a direita liberal para comprar respeitabilidade que sozinho jamais teria. Ao final, nenhum dos dois lados controlou inteiramente o processo que ajudou a desencadear, e o país inteiro herdou circunstâncias que ninguém tinha escolhido, entre elas um ex-presidente condenado, um filho fazendo campanha em nome de um avatar e uma extrema direita internacional que já trata o Brasil como território de expansão doutrinária e quintal de uma política neocolonial que caminha à passos largos sob Trump.
Restava perguntar se a farsa, dessa vez, teria força eleitoral suficiente para repetir o feito de 2018. A pergunta é legítima, e as pesquisas recentes indicam segundo turno com desvantagem para Flávio diante de Lula. Talvez seja este o ponto em que a fórmula de Marx encontra seu limite mais interessante, porque a farsa, ao contrário da tragédia, não garante vitória. Garante apenas repetição degradada da forma, com o conteúdo sujeito às circunstâncias que ninguém no Pacaembu escolheu, e que continuam, elas sim, a escrever o roteiro.
A quadra histórica pede atenção e resistência.