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Ricardo Giuliani

Crônicas

Depois dela

O boné torto me chamou a atenção. Esquina da Independência, skate atravessado na mochila, puxando um ombro mais que o outro. Calça larga, barriga à mostra. Quarenta e tantos anos, é o que imagino. Rugas finas no canto dos olhos atrás do óculos redondo, armação fina contra o rosto.

O sinal ainda fechado. Ela apoiou o pé numa fresta do meio-fio, testando o próprio corpo antes de decidir o que fazer com ele. Um grupo de universitários passou falando alto de alguma festa do fim de semana. Ela nem prestou atenção. Olhava para o outro lado da rua, talvez p’ruma padaria, talvez pro nada.

Porto Alegre guarda quem passa. Luz baixa mesmo ao meio-dia, vento do Guaíba entrando pelas ruas que descem, o mate, os vozerios de alguma janela aberta n’algum apartamento de um terceiro andar em qualquer lugar; a cidade tem esse jeito de segurar as pessoas.

O sinal abriu. Ela desceu do meio-fio sem pressa, as rodas do skate raspando de leve na lateral da mochila a cada passo. Atravessou olhando para frente, o boné projetando uma sombra curta sobre os olhos, e sumiu na esquina seguinte antes que eu decidisse o que fazer com o que tinha visto.

Comprei flores na banca da Osvaldo Aranha naquela mesma tarde. Deixei ao lado da cama, no chão, sem vaso. Na manhã seguinte comprei outras e, depois, mais outras. Os vizinhos devem ter reparado no homem que sai cedo todo dia com um maço nas mãos e volta de mãos vazias.

Nunca mais vi o boné, nem o skate, nem aqueles óculos redondos.

A esquina da Independência segue ali, indiferente, cheia de vento e gente passando; todas as gentes, ela, nunca mais.

Me pergunto sobre o boné, sobre as rodas do skate raspando num asfalto da Cidade Baixa e sobre os olhos que nunca vi.