Ricardo Giuliani

Contos

CHUVA SOBRE AS PRAÇAS

Pinto ainda de manhã, antes que a casa acorde e antes que o telefone comece a tocar com as urgências do grupo, que continuam sendo urgências mesmo quando já não são minhas. Assino as telas com um nome que não consta em nenhum contrato, em nenhuma ata de acionistas, em nenhuma lápide da família, Aurélio Nunes. Mais de meio século de Aurélio Nunes guardados numa sala do terceiro andar que os funcionários chamam de depósito e que é, na verdade, a única parte de mim que não pertence à Krieger.

Foi Beatriz quem entrou sem bater, o celular na mão, a notícia ainda quente.

– Ortega decretou o fim das eleições. Não vai mais haver alternância nenhuma lá. Ele e a mulher, presidentes vitalícios.

Larguei o pincel. Não pela notícia em si, que eu já esperava desde que souberam inventar aquela geometria bizarra de copresidência, e sim pela palavra que minha neta escolheu, sem saber o quanto pesava na boca de um homem da minha idade: alternância. Palavra de relógio, de turno de fábrica, de eleição, de pincel que se troca de mão quando a outra cansa. Uma vida inteira tentando entender o que se ganha e o que se perde quando ela para.

– Senta aqui – falei. – Vou te contar de um tempo em que a gente achava que ia mudar isso tudo em cinco anos.

I

Rio de Janeiro, Escola Nacional de Belas Artes, 1968. Eu tinha vinte anos e um sobrenome que pesava mais do que qualquer pasta de cores. Krieger, do vidro e do aço de Porto Alegre, filho único do homem que erguera duas fábricas com as próprias mãos e queria, para o herdeiro, um diploma de engenharia e um futuro sem tinta debaixo das unhas. Eu tinha ido para o Rio estudar pintura contra a vontade dele, e ali descobri que a vontade de um pai é a menor das forças que empurram um jovem de vinte anos para fora do próprio quarto.

Marília sentava ao meu lado no ateliê de desenho e discutia Brecht com o mesmo fervor com que discutia a nota do professor, que achava baixa. Vinha do Teatro de Arena antes de vir para Belas Artes, carregava Augusto Boal com o fervor que não dispensava à religião nenhuma, e foi ela quem me levou pela primeira vez ao Teatro Oficina ver o Zé Celso encenar “O Rei da Vela”, aquele delírio de Oswald de Andrade devolvido ao país em cores que eu ainda hoje uso na paleta sem saber de onde vieram. Assis estudava jornalismo na Nacional, tinha a letra ilegível e a certeza inabalável de quem lê Sartre pela primeira vez e decide, ali mesmo, que existência precede a essência e que a covardia é, portanto, uma escolha. Líamos “O Mito de Sísifo” em edições emprestadas com página dobrada, e Assis repetia a frase de Camus sobre a revolta como se fosse dele: me revolto, logo existimos. Guy Debord tínhamos acabado de descobrir, num exemplar de “A Sociedade do Espetáculo” que circulava datilografado, mal traduzido, e que Marília lia em voz alta na escadaria da escola. Tudo o que era vivido diretamente se transformara em representação, eis o espetáculo. Não sabíamos ainda que aquela frase ia nos perseguir a vida inteira, sob formas que nenhum dos três seria capaz de imaginar.

Caetano e Gil cantavam coisas que a censura não entendia a tempo de proibir, e por isso mesmo proibia depois, sempre atrasada, sempre burra. Em julho, o Comando de Caça aos Comunistas invadiu o Teatro Ruth Escobar e espancou o elenco de “Roda Viva”, a peça de Chico Buarque, com correntes e capuzes, enquanto a plateia gritava e ninguém da polícia aparecia para impedir. Marília estava lá. Voltou com o lábio cortado e uma calma que eu não soube, na hora, reconhecer como o primeiro sintoma do medo instalado em definitivo.

Edson Luís morreu em março, dezoito anos, baleado pela polícia dentro do restaurante Calabouço, e o enterro virou multidão, e a multidão virou junho inteiro, e junho virou a Passeata dos Cem Mil descendo a Rio Branco com padres e mães e estudantes e artistas, cem mil pessoas convencidas de que um país se vira pelo tamanho da rua tomada. Eu ia na fileira de Marília e Assis, sem cartaz, sem coragem para escrever meu próprio nome numa faixa, e ainda assim caminhava como se aquele fosse o primeiro dia de uma vida que finalmente me pertencia inteira, sem a hipoteca do sobrenome.

II

Não foi. Em dezembro veio o Ato Institucional número cinco, numa sexta-feira treze que a ditadura escolheu com o mesmo humor sinistro de sempre, e fechou o Congresso, e cassou quem quisesse cassar, e tirou do país o pouco de fingimento legal que ainda restava. A polícia parou de negociar com estudantes e passou a caçá-los.

Assis foi preso em janeiro do ano seguinte, solto depois de três meses com uma versão dele que já não falava alto em lugar nenhum. Escolheu o exílio antes que o exílio escolhesse por ele: Chile primeiro, enquanto Allende ainda governava, depois Argentina, quando o Chile também deixou de ser lugar seguro para gente com a ficha dele. Escrevia cartas cifradas que eu decifrava tarde da noite, e nelas ainda cabia humor, ainda cabia Debord, ainda cabia a insistência de que aquilo tudo passaria.

Marília não foi presa. Escolheu ficar, dizia que fugir era dar à ditadura o gosto de ter varrido o país inteiro, e continuou no teatro até onde o teatro aguentou continuar existindo. Perdi o rastro dela por anos, do jeito que se perde o rastro de quem a gente ama sem saber, na hora, que estava amando.

III

Meu pai morreu de enfarte em 1971, na sala da fábrica, o telefone ainda na mão e uma negociação de exportação de vidro temperado pela metade. Voltei para Porto Alegre para o enterro e não voltei mais para o Rio. A empresa não perguntou se eu queria administrá-la. Perguntou, isso sim, quantos empregos dependiam da resposta, e essa é uma pergunta que ninguém com consciência responde com leviandade.

Assumi a Krieger aos vinte e três anos, num país que fabricava desaparecidos com a mesma eficiência industrial com que a minha fábrica fabricava chapas de aço. Na primeira semana recebi a visita de um coronel de terno civil, gentileza toda cultivada, que veio explicar que contratos com o Estado exigiam certas garantias de que a empresa não abrigaria, entre os operários, elementos subversivos. Perguntei o que significava garantia. Ele sorriu e não terminou a frase, não precisava.

Não denunciei ninguém, também não briguei com o coronel, porque atrás dele havia dois mil salários e uma cidade inteira que dependia daquela fábrica para comer, e Sartre nunca escreveu o capítulo que explica como se resolve isso sem sujar as mãos de algum lado. Assinei o contrato, mantive o sindicalista mais visível da fábrica no cargo dele até que o próprio sindicalista, sabendo mais do que eu sobre o que se aproximava, pediu demissão e sumiu por conta própria. Aprendi ali, cedo, que engajamento não é pureza, é escolher qual compromisso te deixa capaz de olhar no espelho na manhã seguinte, sabendo que o espelho, esse, puta que me pariu, nunca perdoa de verdade.

IV

Foi por isso que inventei Aurélio Nunes. Não por vaidade de artista incompreendido, e sim pelo cálculo inverso. Se a Krieger ia precisar, de tempos em tempos, transigir com o poder para sobreviver, a pintura não podia carregar esse mesmo desconto moral. Mandei os primeiros quadros para uma pequena galeria de Buenos Aires através de um contato de Assis, assinados com o nome que inventei numa noite insone, e ninguém em Porto Alegre jamais associou o industrial de colarinho engomado ao pintor que uma crítica argentina, em 1974, chamou de “um Bacon tropical sem a violência inglesa, com a violência tropical no lugar”. Vendia pouco e guardava tudo o que não vendia, e mais de meio século depois, ainda guardo.

V

Assis morreu em 1976, em Buenos Aires, dentro do que os arquivos abertos décadas depois chamariam de Operação Condor, a rede que Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia montaram para caçar exilados por cima das próprias fronteiras, como se fronteira fosse coisa que só servisse para prender quem queria sair e nunca para impedir quem queria entrar armado. Soube da notícia por uma carta de outro exilado, três meses depois do fato, e a carta não tinha data de nascimento nem de morte, só um endereço de cemitério que levei catorze anos para visitar, porque catorze anos foi o tempo que a ditadura brasileira levou para acabar e eu recuperar o passaporte que tinham confiscado por “irregularidades cadastrais” que até hoje não tenho a menor ideia do que seja isso.

VI

Fui a Cuba em 1978, a convite de um encontro de industriais latino-americanos que a ditadura brasileira nunca soube que eu tinha aceitado. Conheci Fernando Ochoa, pintor havanês, numa oficina gráfica que imprimia cartazes de alfabetização com a mesma tinta que imprimia retratos de Fidel. Fernando me mostrou os números que ainda hoje respeito sem reserva: um país que erradicou o analfabetismo em pouco mais de um ano, que formou médicos suficientes para exportar solidariedade a meio mundo pobre. Mostrou também, na voz baixa reservada para depois da segunda garrafa de rum, o retrato do poeta Heberto Padilla obrigado, em 1971, a se autodenunciar diante de uma plateia de escritores, confessando crimes contra a revolução que ninguém, nem ele, conseguia levar a sério. Sartre assinara a carta de protesto contra aquilo, junto com Vargas Llosa e outros que até então tinham sido aliados fiéis de Havana, e o episódio partiu ao meio a esquerda intelectual do continente do mesmo jeito que partiu, décadas depois, minha própria admiração por Cuba, inteira de um lado, cética do outro, sem costura possível entre as duas metades. Nunca deixei de admirar o que a revolução fez pela dignidade material de um povo pobre, nunca deixei, tampouco, de dizer em voz alta que revolução sem eleição livre, sem imprensa livre, sem opositor vivo e solto, é sempre uma promessa presa pela metade.

VII

A Krieger abriu escritório em Gdańsk em 1980, para importar aço polonês mais barato que o nosso, e eu estava lá em agosto quando os estaleiros pararam. Vi de longe, atrás de um cordão de operários, o eletricista de bigode que discursava em cima de uma empilhadeira, e vi nascer o Solidariedade antes de saber que aquilo tinha nome, antes de saber que aquele homem se chamava Lech Wałęsa e que ia, um dia, ganhar o Nobel da Paz e presidir a própria Polônia livre. Escrevi para Marília, com quem tinha retomado contato depois da anistia, contando que tinha visto operários derrubarem, com a única arma da greve, um regime que tanques nenhum movimento estudantil jamais conseguira arranhar.

O que não previ, porque ninguém prevê a segunda metade de um herói em cima da primeira, foi o Wałęsa dos anos seguintes: o presidente que a própria base do Solidariedade acusou de autoritário, os documentos que o Instituto Polonês da Memória Nacional considerou autênticos e que ele sempre negou, indicando colaboração antiga com a polícia secreta comunista que ele viria a derrubar, as declarações tardias contra homossexuais, o abraço final à direita nacionalista de um país que ele mesmo ajudara a libertar da direita nenhuma e da esquerda nenhuma, e da merda nenhuma, apenas da mentira única do partido único. Guardo os dois Wałęsas na mesma gaveta, o do estaleiro e o da entrevista que me fez desligar a televisão em silêncio, porque a história raramente dá a decência de manter os heróis parados no dia exato em que foram necessários.

VIII

No mesmo ano, dentro do próprio país, financiei sem alarde a fundação de um partido que nascia das mesmas mãos calejadas: metalúrgicos do ABC paulista, intelectuais de esquerda saídos da clandestinidade, padres da teologia da libertação, artistas que confiavam mais numa assembleia de chão de fábrica do que em qualquer congresso de partido tradicional. O Partido dos Trabalhadores nasceu em fevereiro daquele ano, no Colégio Sion, com certeza a maior experiência de esquerda que o Ocidente produziu depois da guerra, porque não veio de cima, de comitê central nenhum, veio de baixo, do aço batido em prensa, do mesmo aço que a minha própria fábrica também batia, só que do lado errado da disputa entre capital e trabalho. Nunca me filiei. Doar dinheiro anônimo era, para um industrial com sobrenome de fábrica, o único jeito de estar dentro sem trair, ao mesmo tempo, os dois lados da própria vida.

IX

Enquanto a Nicarágua sandinista ainda comemorava a vitória de Ortega nas urnas, o Brasil tentava arrancar da própria ditadura o direito de fazer o mesmo. A campanha das Diretas Já tomou as praças em 1984, e o país inteiro parou de uma vez para assistir ao mesmo comício. Vi cantores e atores dividirem palanque com sindicalistas e bispos na Praça da Sé e depois no Anhangabaú, Chico Buarque, Milton Nascimento e uma legião de artistas emprestando a própria fama para empurrar a emenda Dante de Oliveira, que mesmo assim, em abril, faltou votos no Congresso para passar. O país perdeu a eleição direta e ganhou, ainda assim, a certeza de que o regime tinha os dias contados. Tancredo foi eleito no ano seguinte pelo colégio eleitoral que a própria emenda pretendia abolir, prova de que uma derrota parlamentar, tomada no tamanho errado, também sabe ser vitória disfarçada.

X

Financiei, sem nunca colocar meu nome, o transporte de cartilhas de alfabetização para a Nicarágua sandinista em 1980, no ano seguinte à queda de Somoza, através de uma organização não governamental sueca que Fernando Ochoa me apresentara. A Frente Sandinista de Libertação Nacional parecia, naquele momento, a versão latino-americana da coisa certa: uma revolução que prometia terra, alfabetização e eleição, nessa ordem e sem trapacear a última palavra.

Daniel Ortega venceu a eleição de 1984, perdeu a de 1990 e entregou o poder, o que naquela década era mais raro do que parece hoje. Voltou em 2007 por via eleitoral e foi, a partir daí, desmontando peça por peça o mecanismo que o tinha eleito: reduziu o quociente necessário para vencer no primeiro turno, encheu o Supremo de aliados até declarar inconstitucional o próprio limite de reeleição, prendeu a candidata mais forte da oposição às vésperas do pleito de 2021, criou em 2025 a copresidência com a esposa, Rosario Murillo, e decretou agora, o fim de qualquer alternância futura. A mesma palavra, alternância, que abriu esta conversa com Beatriz, é a que a Frente Sandinista prometeu ao povo nicaraguense em 1979 e é a que o próprio comandante daquela revolução acabou de enterrar em vida, com a mulher ao lado no mesmo decreto.

XI

Continuei, década a década, do lado de fora dos partidos e dentro das causas. Admirava, sem reserva de nenhuma espécie, os socialistas que a história já tinha absolvido, Picasso pintando pombas depois de pintar Guernica, Jorge Amado contando a Bahia inteira pelos olhos de quem trabalha nela, Cândido Portinari devolvendo dignidade de mural aos retirantes que a arte acadêmica preferia não enxergar, Antônio Cândido, professor sempre, ensinando que literatura é direito, não luxo de poucos. Eram, para mim, o socialismo na sua forma mais honesta, a que se prova pela obra e não pelo comício.

Apoiei Lula até a metade do primeiro governo, sem nunca ter carteirinha de filiado em bolso nenhum. O mensalão quebrou, em 2005, mais do que um esquema de compra de voto no Congresso, quebrou minha aposta de que aquele partido nascido em 1980 soubesse chegar ao poder sem herdar os vícios do poder que sempre combatera. Não abandonei a esquerda. Abandonei a confiança de que um partido específico continuava sendo, sozinho, a forma que a esquerda deveria tomar.

XII

O Vietnã eu vi pela televisão em preto e branco do apartamento de Assis, ainda em 1968, os corpos de Mỹ Lai, a menina correndo nua e queimada por napalm numa foto que a censura brasileira não teve tempo de segurar antes de o mundo inteiro já tê-la visto. Trinta anos depois, o cerco de Sarajevo entrou pela mesma televisão, agora colorida, com um violoncelista solitário sentado nos escombros a tocar Albinoni em memória de vinte e dois mortos numa fila de pão, e Fernando Ochoa, já refugiado do próprio país por razões que prefiro não contar aqui, me escreveu de lá uma única frase: “o cerco muda de sotaque, nunca de gramática.” Hoje é Gaza, e são outras crianças, outro hospital, outro número que ninguém consegue mais fechar com precisão, e a gramática continua sendo a mesma que Fernando decifrou em Sarajevo e que eu vira, ainda menino de vinte anos, decifrada em Mỹ Lai. Sonhei, na noite em que a notícia da Nicarágua chegou, com os três, Assis, Marília e Fernando, sentados na escadaria da Escola Nacional de Belas Artes, moços outra vez, discutindo se a revolta ainda vale a pena quando o século muda de sotaque tantas vezes sem nunca mudar de gramática. Marília, no sonho, ria. Dizia que sim, que vale, e que a prova é que ninguém, em lugar nenhum do mundo, aprendeu ainda a ficar quieto.

XIII

Em 2020 a pandemia levou Fernando Ochoa, exilado de Havana havia vinte anos, morto num hospital de Miami sem ninguém da família ao lado, enquanto o presidente do meu próprio país chamava o vírus de gripezinha e recomendava cloroquina em rede nacional, e um ministro da saúde caía atrás do outro por razões quase sempre inomináveis. A Krieger fechou dois turnos e financiou, isso com nome e sobrenome, porque havia coisas que já não cabiam em pseudônimo nenhum, uma usina de oxigênio para o hospital público de Porto Alegre. Enterrei amigos por chamada de vídeo. Vi o humanismo, a ciência e o bom senso tratados como fraqueza de quem não tinha estômago para a economia continuar girando, e vi, em 2022, esse mesmo presidente quase se reeleger depois de seiscentas e tantas mil mortes evitáveis, perdendo por um triz, cinquenta vírgula noventa contra quarenta e nove vírgula dez, a eleição mais apertada da história do país. Quase, eis a palavra mais perigosa da língua portuguesa, porque promete que da próxima vez o resultado pode simplesmente virar.

XIV

Beatriz ficou calada um tempo depois que terminei, o celular esquecido na mão, a notícia da Nicarágua já velha de uma hora, que é o tempo que qualquer notícia leva hoje para envelhecer.

– E o senhor não ficou com raiva de ter perdido tudo isso? O Rio, os amigos, a pintura que podia ter sido sua vida inteira?

– A pintura foi minha vida inteira – respondi. – Só não assinou o nome que está no meu documento.

Perguntou, depois, se doía ver o país de hoje tão distante daquele que sonhamos. Doía mais, respondi, ver o auditório da formatura dela inteiro de pé cantando sertanejo universitário e não saber uma estrofe sequer de Chico ou de Caetano, não porque o gênero seja menor, jamais falaria assim de quem enche estádio com violão e sabe rimar amor com dor com o rigor de quem trata rima como ofício, porém porque a canção parou de discutir o país com o país, virou trilha de festa corporativa e churrasco de fim de tarde, e uma nação que só canta sobre paixão perde, aos poucos, o hábito de cantar sobre si mesma. Falei também da ameaça nova, essa que Umberto Eco resumiu antes de morrer: as redes sociais deram voz a legiões de imbecis que antes só falavam depois da segunda cerveja no boteco, sem incomodar ninguém além do garçom, e hoje falam com o mesmo microfone de qualquer prêmio Nobel. Contudo há gente nova escrevendo poesia em sarau de periferia, ocupando praça com microfone aberto, publicando livro fora do circuito das editoras grandes, e essa gente enfrenta um adversário que a nossa geração não teve: não polícia de farda, não censura de despacho, e sim um algoritmo treinado para premiar o grito mais banal contra a reflexão mais lenta. Duvido, nunca duvidei, de que a arte sobreviva a qualquer ditador. Tenho menos certeza de que sobreviva, sem ferimento, a um feed infinito.

Levei-a até o terceiro andar, abri a sala que os funcionários chamam de depósito, mais de meio século de Aurélio Nunes empilhados contra a parede, telas voltadas para dentro. Peguei uma tela em branco do canto, ainda sem grampo na moldura, e coloquei nas mãos dela, junto com um pincel limpo.

– Não vou te dizer o que pintar, nem com que nome assinar.

Beatriz olhou a tela em branco, depois olhou para mim. Não perguntou mais nada. Molhou o pincel no pote de água parada que está em cima daquela mesa desde antes de ela nascer, e o ergueu contra a luz enviesada da janela, uma luz que ainda hesitava, àquela hora, entre o azul e o cinza, e tomou a decisão: “vou pintar a chuva se derramando sobre uma praça, sinto que sem ela as manchas de sangue seguirão como rastros na direção do infinito”.

*esta é uma obra de quase ficção.