Todos os Nomes
A UTI tem luz branca, ar climatizado, leitos separados por cortina verde, cada um com seu feixe de fios e seu bipe particular; compõem juntos um coro dissonante e harmônico. No leito três, há quatro dias, Belarmino não move um dedo.
Escuta tudo com uma nitidez que o otorrino jamais lhe proporcionou em sessenta anos de idas e vindas. O tubo na garganta recolhe qualquer intenção de fala, e o ouvido, órgão desprezado enquanto o corpo funcionava por conta própria, virou a última embaixada de sua vontade. Na cicatriz da perna esquerda, marca de um dos tantos choques recebidos em 1971 no casarão do DOPS, ninguém repara. No pulso esquerdo, também ninguém repara numa guia de contas vermelhas e brancas que carrega há trinta anos, presente de Mãe Zulmira, recebida num dia comum de visita ao terreiro. Reparam apenas nos números do monitor, subindo e descendo sem que ninguém ali saiba interpretá-los direito, mas que todos, a seu modo, interpretam.
Rodrigo, o sobrinho, comenta junto à porta que o país anda difícil, que já não se sabe em quem votar, que o mais seguro é não se meter em nada. Belarmino, ex-metalúrgico, ex-vereador cassado, fundador de uma associação de moradores que sobreviveu a sabe-se lá quantos prefeitos, marido de três mulheres ao longo de setenta e oito anos, só escuta.
Chega Iara. Sobrinha neta, mulher por ser mulher e não por nascença, acomoda-se na beirada da cama. Fala baixo, entre o riso e uma fúria antiga, que o Brasil segue tentando escolher por ela quem ela deve ser, que a cada eleição aparecem propostas querendo devolvê-la a um armário que ela nunca visitou. Lembra que ele foi o único da família a chamá-la pelo nome certo desde o primeiro domingo em que apareceu mulher no almoço. Ele pisca os olhos, duas vezes.
As ex-mulheres chegam em sequência. Yolanda primeiro, professora aposentada, com quem ele organizou a campanha das creches do bairro, reclama baixinho que a prefeitura fechou duas. Depois Cacilda, com quem adotou o filho mais velho numa temporada de clandestinidade, casa que abrigou quem fugia da ditadura e, décadas depois, segue abrigando todos aqueles que querem discutir qualquer coisa, desde que não seja nada que se aproxime das sandices bolsonarianas. Por último Berenice, que o conheceu já grisalho, organizadora do abaixo-assinado contra a reintegração de posse no Buraco Quente. As três se cumprimentam com a cordialidade tensa de quem conviveu com o mesmo homem por anos.
Reclamam dele em uníssono. Reuniões que substituíram jantares, prisões que substituíram aniversários. Por trás da reclamação, um orgulho que nenhuma delas se dá ao trabalho de esconder direito. Belarmino pensa em dizer que amá-lo nunca foi o problema, o problema foi sempre esse país que insistia em precisar dele fora de casa, aos domingos, de madrugada, nos piores horários. Sua expressão vem pelo monitor que transforma o pensamento num pico gráfico.
É nesse momento que o quarto começa a se desarranjar. Ninguém percebe, ocupados demais com as pessoas para reparar nas coisas. O soro pinga em compasso, o respirador assume uma cadência de sirene de fábrica anunciando intervalo. Belarmino, que presidiu tantas assembleias quanto enterrou companheiro de luta, reconhece os sintomas que são vida.
– Reivindicamos manutenção dos sinais até o encerramento dos trabalhos -, anuncia o monitor, numa voz grave e sintética. Belarmino pisca duas vezes!
– Contraproposta: encerramento antecipado, sem prejuízo dos direitos adquiridos -, responde o respirador. Belarmino concorda com mais duas piscadas. Nestas horas um bom acordo resolveria o problema.
O oxímetro, o mais nervoso da mesa, sugere greve branca. Belarmino tenta erguer a mão para pedir a palavra e descobre que já não precisa de mão nenhuma para ser ouvido ali dentro.
Sentado na cadeira de plástico reservada a acompanhantes, um homem que ninguém trouxe, observa sereno. Traje preto, gravata solta, um cravo vermelho na lapela sangrando sobre o tecido. Não diz o nome, comenta apenas que ronda hospitais desde que existem hospitais, e antes disso rondava tablados, currais, patíbulos, qualquer lugar onde um corpo estivesse prestes a soltar sua última verdade ou entregar seu último convencimento.
No pulso, a guia que Mãe Zulmira lhe deu segue firme. Não acredita em Deus e nem em deuses. Considera agora a hipótese de estar prestes a encontrar justamente aquele em quem nunca acreditou; irônico, pensa e confirma com mais dois apertos de pálpebra. Se Deus existir, vai cobrar satisfações. Se não existir, ao menos morre coerente.
Falam de sangue e de lua, de guitarra que talvez viesse ao caso. O homem de preto conta de um poeta fuzilado numa estrada de azinheiras por ser quem era e dizer o que dizia, uma madrugada de Granada em que a bala tinha pressa em calar um jeito de sentir. Belarmino, que levou choque elétrico e não bala, escuta o relato. A vontade nessa hora era fugir daquelas amarras e abrir o peito para o povo que precisa de peitos abertos e vozes firmes.
Lá fora o céu soa o trovão. A luz do corredor fraqueja três vezes, cor de cobre em brasa, e o gerador entra com um solavanco que faz a enfermeira Marisa praguejar contra a concessionária, contra agosto, contra a manutenção que a diretoria do hospital vem adiando desde a última licitação. A médica de plantão anota a instabilidade elétrica no prontuário. A guia vermelha e branca esquenta no pulso de Belarmino. Ninguém no corredor associa o apagão a um homem de vermelho e machado duplo, devoção de bairro de Belarmino desde criança, cuja pontualidade sempre foi superior à do SAMU.
Pelo corredor, atravessa uma passeata sem gritar palavra de ordem. Nela cabe toda cor que o Brasil produziu de si mesmo e depois insistiu em esquecer, mulheres à frente, netas de terreiro, um coral sem ensaio que acerta o tom por nada ensaiar. Atrás, mais discreta, uma fileira; gente sufocada aos poucos por falta do mínimo, numa fila que nunca andava direito. Não é povo corrupto, nem moralista, nem preconceituoso, apenas um povo a quem ainda não devolveram o espelho. A elite que finge representá-lo, pensa Belarmino, é bastarda de nascença e fiel apenas a si mesma, e nisso nunca falhou.
O corpo começa a soltar as próprias amarras, uma a uma, vagão por vagão de um trem que cada memória entregará o destino. Belarmino fala da greve de 83, da creche que ainda funciona mesmo com a outra fechada, da associação de moradores, do filho criado com Cacilda sob vigilância da polícia política, das noites em que a casa serviu de refúgio para quem fugia de eletrochoque disfarçado de tratamento espiritual, do domingo em que chamou Iara pelo nome certo; tudo isso sem ordem, e ordem pra quê? Se a vida termina, ordem pra quê?
E a frase que vinha guardando fazia tempo, foge pelo lado do tubo que o engasga.
– Valeu a pena!
A luz do corredor volta ao normal. A médica anota o horário. Marisa comenta que o gerador daquele hospital é uma piada de mau gosto. As três ex-mulheres seguram as mãos umas das outras sem perceber que o fazem. Iara pega o celular para fotografar e desiste, o que vale é só a lembrança.
O monitor emite a linha reta. Marisa desliga o alarme sonoro com o polegar.
Chove sobre o Brasil. Chove sobre o hospital, sobre o Buraco Quente, sobre o casarão do DOPS, sobre o cartório que um dia hesitou diante de tantos nomes.