No elevador do prédio novo, ninguém cheira a nada.
É a primeira coisa que se nota, se alguém ainda se dá ao trabalho de notar. O ar ali dentro tem o mesmo perfume neutro do saguão, que é o mesmo do corredor, que é o mesmo da sala de reuniões: um cheiro de nenhum lugar, fabricado para não ofender ninguém, e por isso mesmo incapaz de dizer qualquer coisa sobre quem o carrega. Todos ali cheiram ao amaciante do mesmo lava-rápido de roupa social, ao desodorante do mesmo corredor de farmácia, ao café da mesma máquina que o produz, seis vezes por hora, a mesma dose de líquido morno e sem gosto.
É um cheiro de consenso! E consenso, todo mundo sabe, é o que resta quando ninguém arrisca dizer o que pensa em voz alta o bastante para que se sinta o hálito.
Ortega chamou isso de homem-massa, não o pobre, não o ignorante, o satisfeito. Aquele que encontra em si mesmo um conjunto de ideias já prontas, já testadas, já aprovadas por todos os outros satisfeitos, e as tem por suficientes.
Ingenieros, do outro lado do rio, chamou de medíocre quem teme a exceção como quem teme uma corrente de ar, pode ser refrescante, mas desarruma o penteado.
Nenhum dos dois, notem, falava de quem tem menos, falavam de quem tem medo, e o medo, esse sim, é democrático, distribui-se igualmente entre patrões e empregados, entre doutores e aprendizes, entre chefes e funcionários, entre os com FG e os que querem FG, entre quem já fez alguma coisa na vida e quem apenas administra o que os outros fizeram.
Há um cheiro que o elevador não tolera, e é o de quem trabalha de verdade. Pensem, quando entra o sujeito da oficina do primeiro andar, o que solda, o que lixa, o que respira verniz seis horas por dia para que a porta de um armário feche direito, e o elevador todo se encolhe. Ele cheira a esforço, a suor que não é de academia, a tinta que não sai nem depois de três banhos, a cola de sapateiro, o cigarro fumado durante uma crise, a medo de errar o corte e estragar a peça inteira. É um cheiro que insiste, que fica na roupa depois, que avisa aos outros: aqui esteve alguém que fez alguma coisa. E é isso, precisamente isso, que os satisfeitos do elevador não perdoam, porque o cheiro de quem faz denuncia, o vazio perfumado de quem apenas administra, ou mal fala, o feito alheio.
Fazer alguma coisa nova, alguma coisa que ainda não tinha padrão nem protocolo nem embalagem, deixa marca no corpo de quem faz, e essa marca tem cheiro, porque o corpo, ao contrário do currículo, não mente. O escritor que rasga onze versões de uma página fede a cigarro, a café requentado às três da manhã, a uísque bem sorvido. O que só copia a fórmula que já vendeu no ano passado não cheira a nada, está, esse sim, com o mesmo perfume do elevador, como o ser que não consegue trazer uma forma pra si, e ao não conseguir, procura destruir as formas dos fedorentos, estes sim, cada um com suas singularidades e seus, porque não dizer, charmes bukowsquianos, malditos, feios.
E a mediocridade, vista assim, deixa de ser um defeito de caráter e passa a ser o que sempre foi, um sistema de climatização. Um conjunto de normas, de escritório, de editora, de repartição pública, de gosto médio desenhado para que o ar circule sempre à mesma temperatura, para que ninguém precise abrir a janela e sentir o que vem de fora. O medíocre de Ingenieros não é mau, é, sobretudo, um bom administrador do próprio ambiente. E o homem-massa de Ortega não é burro, é alguém que decidiu, racionalmente até, que o conforto do ar-condicionado vale mais que o risco da janela aberta.
Quem quer fazer alguma coisa, um livro, um quadro, uma lei que não seja cópia malfeita da anterior, uma vida que não caiba no elevador, precisa aceitar que vai feder. Vai cheirar a erro, a insistência, a noite maldormida, a versão que não deu certo, ao tentar de novo. E vai encontrar, na porta do elevador, gente educada, bem-vestida, sem nenhum cheiro perceptível, perguntando, com toda a gentileza do mundo, se não seria mais fácil usar o desodorante que todo mundo usa.
Não seria., no máximo somente seria mais silencioso.