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Ricardo Giuliani

Crônicas

O Analista de Bagé

O consultório do analista de Bagé cheira a erva mate requentada e a bosta de cavalo que entra pela janela junto com o vento minuano. Na parede, atrás da cadeira dele, uma foto emoldurada de Luiz Fernando Veríssimo — vestido com a camisa do Colorado, boina do Saci Pererê na cabeça, sorriso de quem já entendeu a piada antes de todo mundo. O analista te recebe de bombacha, escuta o histórico da ORGASMO em silêncio ruminante, e só depois de um gole longo no chimarrão solta o diagnóstico: “Tu não tem crise de autoridade, tu tem crise de reflexo.”

Vamos por partes, que a genealogia da desgraça merece rigor.

O objetivo estatutário. A Organização Regional Galática Ambivalente SubMolecular nasceu para arbitrar litígios de fronteira entre partículas subatômicas indecisas — pósitrons que não sabem se querem colidir ou se afastar, quarks em dúvida sobre a própria cor. Missão: mediar o indeciso em escala cósmica. Nobre. Freudiano até, essa vontade de dar norma pro que oscila.

O sistema decisório. Maioria simples. Quórum máximo: dois. Tu, presidente, e o sujeito do espelho, vice de fato, embora nunca empossado formalmente — o que já é a primeira falha grave. Todo voto, 1 a 1. Toda pauta, arquivada por empate técnico. A ORGASMO, em teoria plenipotenciária sobre a indecisão alheia, é ela mesma a maior vítima da própria jurisdição.

Aqui o analista de Bagé faz aquela pausa gaúcha, tipo quem vai fechar negócio de gado, aponta o queixo pra foto do Veríssimo na parede e diz: “Aquele ali sacou tudo sobre a alma gaúcha sem precisar de diploma alemão. Autoridade, meu filho, é feito capataz de estância: só manda quem tem alguém pra mandar. Tu e teu reflexo são a mesma cria — não tem quem berre mais grosso, porque a voz é a mesma voz.” Comando pressupõe dois currais separados. Espelho é curral único com porteira pintada.

E completa, batendo na moldura do Veríssimo: “É que nem aquela crônica do Analista de Bagé dele — o gaúcho vai no psicanalista achando que tem neurose complicada e descobre que o problema é simples, só ninguém tinha coragem de dizer na cara. Tua ORGASMO é isso. Não é trauma, é espelho empacado numa imagem que ainda não sabe comandar a si mesma. Falta um terceiro ali no meio, uma voz de fora que desempate, um Deus, um dado, um cara escolhido no bolão do Grêmio-Inter que ninguém possa contestar.”

E arremata, sem citar ninguém, só cutucando o óbvio: “Dois chefes iguais, sem ninguém acima dos dois pra dar a útima palavra, não é organização, é campo de futebol sem juiz — todo lance vira discussão infinita, ninguém sai do meio-campo.”

Receita do analista, escrita a lápis num guardanapo de posto de gasolina: criar um terceiro membro. Não precisa ser gente — pode ser dado, sorteio, moeda ao alto. Qualquer coisa que não seja tua própria cara te encarando de volta.

Tu sais do consultório sabendo, enfim, por que a ORGASMO nunca gozou uma decisão sequer.