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Ricardo Giuliani

Contos

Os quinze segundos

Na vitrola, John Mayer tocava New Light. A agulha descia o sulco e ele, que fazia anos não subia num palco, subiu. Imaginário o palco, intactas as tábuas, os refletores, as vozes que pediam aquele solo. Todos pediam o solo. Breve, cobrava caro.

Um teólogo de Alexandria, de nome perdido num incêndio sem data, sustentou que o paraíso dura um instante e que a eternidade é a impossibilidade de sair dele. Ele nunca leu esse teólogo. Talvez ninguém tenha lido. Sabia, contudo, que quinze segundos bastavam.

A primeira nota vinha num slide perfeito, de Gilmour, e era o primeiro degrau de uma escada. Cada degrau repetia o anterior e o continha. Quem subia um subia todos, quem chegava ao alto chegava ao começo. Descia no último tom, extorquido da velha Gibson. Entre a subida e a descida, a vida inteira. Quinze segundos de travessia pelo palco, e neles os bares de beira de estrada, as madrugadas de corda partida, a mulher da terceira fila que não voltou, o pai que não foi a show nenhum, os aplausos iguais em todas as cidades, a mesma plateia trocando de roupa.

O dia era branco e branco ele era.

Há quem suspeite que todo guitarrista que já tocou aquele solo é um só guitarrista. No espelho do corredor, a luz da tarde apagando, viu de passagem outro homem com a mesma Gibson inexistente nos braços. Não soube qual dos dois imitava o outro.

De amor era o solo. Pediu tudo o que pudesse vir. Pediu sem esperar resposta. Pediu o sol, e veio. Pediu a chuva, e veio também. Naquele quarto as estações obedeciam à agulha.

Estava sozinho. Sozinho, ao som da vitrola, um riso nos lábios que ninguém viu. Sozinho com o sol, com a chuva, com a plateia que não estava e nunca deixou de estar.

Se ela veio, não sei. Ele nunca soube. Os registros divergem. Um diz que a porta se abriu antes do último tom. Outro, que a porta não existia. Um terceiro, menos confiável, garante que ela sempre esteve ali, na terceira fila, esperando ele terminar pra começar a existir.

A mão esquerda ficou parada no último traste. O peito, que tantas noites prendeu o fôlego antes da nota, dessa vez não soltou. Lá fora a chuva parou sem avisar ninguém. Partiu num dia que era branco, e branco ele era.

O disco seguiu girando. No fim do vinil, o arranhão que se perdeu no último sulco voltava e voltava, o mesmo estalo, a mesma volta, ninguém pra levantar a agulha.

Na mesa, meio copo de uísque debruçado sobre os desenhos rascunhados.