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Ricardo Giuliani

Contos

Uma certa pedra

Uma certa pedra-tesouro

A Vila Capuz do Monge não aparece em nenhum mapa. Quem a procura pelo aplicativo acaba invariavelmente numa churrascaria em Viamão. Ela existe onde sempre existiram as coisas mais importantes: no intervalo entre o que se prometeu e o que se cumpriu, naquela fresta de luz embaixo da porta quando alguém ainda está acordado às três da manhã pensando em vida.

Foi lá, num sobrado cor de mostarda com janelas de madeira azul e um jardim que nunca decidiu entre ser floresta ou quintal, que Fontana chegou aos noventa e dois anos numa manhã de outono gaúcho — daquelas manhãs em que o frio entra pela solapa do paletó e diz bom dia, porque por essas bandas, até o frio traz certa educação.

Fontana estava na varanda, numa cadeira de vime que rangia como se também fosse velha e também tivesse histórias, tinha um caderno de capa amarelada pelo tempo no colo. Não era o caderno de um homem derrotado. Era o caderno de um “auditor” — o único tipo de auditoria que ele nunca aprendera na faculdade: a auditoria da própria existência.

Vamos ver se essa vida deu lucro, disse ele para o cachorro, que se chamava Processo — um guaipeca cor de terra molhada, com uma orelha em pé e outra em dúvida, que havia chegado ao jardim anos atrás sem avisar, como costumam fazer as melhores companhias. Processo levantou o focinho, avaliou a frase com a seriedade de um assessor jurídico e, sem responsabilidades maiores, voltou a deitar sobre as pedras quentes da varanda, tal qual um assessor jurídico faz. Aprovação canina, discreta, mas consistente.

Fontana era graduado em Ciências Jurídicas e Sociais, se fez mestre e doutor em Direito, alguns livros publicados, contribuições em jornais e revistas, músico e artista plástico, dizem, bom debatedor, língua ferina que herdou do Pai. Aos noventa e dois, a coisa de que mais se orgulhava era ter aprendido a fritar um ovo sem quebrar a gema. O direito se aprende na faculdade, dizia ele, já o ovo frito se aprende quando a quarta mulher vai embora e tu descobre que vai morrer de fome e que sempre ou quase sempre foi um inútil.

Quatro casamentos. Fontana os anotou no caderno com respeito cirúrgico, como quem cataloga espécies raras.

Primeira esposa, pausa: os auditores inventam fatos e números quando precisam esconder coisas reais, então os nomes e profissões são próprias de quem precisa proteger as coisas preciosas que se teve na vida. Bem, vamos lá, Beatriz e Pianista. Dedos longos que faziam o ar ao redor parecer mais refinado. Durou onze anos. Terminou porque Fontana confundiu militância política com vocação para reuniões aos domingos, e Beatriz, com muita elegância, disse que preferia os domingos com Chopin. Ela tinha razão, escreveu Fontana no caderno. Chopin não convocava assembleias e nem perdeu a revolução porque estava numa das tantas e intermináveis reuniões reuniões. Fontana lembra com certa graça quando Beatriz, puta da cara, dizia que as tais reuniões eram do tipo bater punheta em defunto, dava em nada. E ela tinha razão, mas Fontana levou tempo pra reconhecer que era bem assim.

Segunda esposa: Fernanda. Arquiteta – já sabem, tudo, tirando os fatos, falso. Reformou a casa, a cozinha, o closet, começou a reformar Fontana e ele escapou antes da obra terminar. Saiu pelo estreitar, foi o que anotou, usando jargão da construção civil que aprendera com ela e que usava desde então com um carinho residual e irônico.

Terceira esposa: Solange, lembrem-se das transmudações úteis para a sobrevivência. A mais vermelha de todas, no sentido ideológico e também capilar, tingia o cabelo de um vermelho que parecia manifesto político. Foram dez anos de amor e debate. Separaram-se após uma discussão sobre Rosa Luxemburgo que durou três dias e migrou, misteriosamente, para uma divergência sobre quem havia esquecido de pagar o IPTU. O pessoal é político, escreveu Fontana, mas o IPTU é mais político ainda.

Quarta esposa: Neusa. A última. Ceramista. Fazia potes que pareciam guardar segredos em vez de arroz. Esteve com ele dezoito anos. Morreu cinco anos atrás, numa tarde de abril, com a mão de Fontana na mão e um pote de barro cru na prateleira que nunca foi ao forno, e que ele mantinha assim, cru e úmido na memória, para não esquecer que há coisas que ficam inacabadas e que o inacabado também é uma forma de perfeição.

Quatro casamentos, releu Fontana em voz alta. Passivo considerável. Mas os ativos… Sorriu. Os ativos eram todos humanos.

Havia uma contradição em Fontana que seus adversários adoravam apontar e que ele adorava não explicar: era socialista até a medula e jogava golfe toda semana com entusiasmo de burguês convicto.

Não há contradição, dizia, com aquela paciência de professor que já respondeu a mesma pergunta oitenta vezes e na octogésima primeira ainda acha graça. O golfe é a prova cabal do socialismo. Dezoito buracos, todos iguais na distância do ideal, e ninguém — nem o rico, nem o pobre, nem o doutor — consegue fazer o maldito par sem sofrer. A bola não tem classe social. A bola humilha a todos com igualdade exemplar.

Ninguém ficava completamente convencido. Fontana tampouco se importava. Havia algo no golfe que o acalmava de um modo que nenhuma terapia, nenhuma meditação e nenhum manifesto político jamais havia conseguido, a combinação de silêncio, geometria e fracasso previsível. Cada tacada era uma hipótese. Às vezes a realidade confirmava, às vezes refutava, e o gramado ficava igual nos dois casos — verde, vasto e indiferente.

Depois do golfe, vinha o Single Malt. Essa era a parte que não precisava de nenhuma justificativa teórica, e Fontana tinha a honestidade intelectual de não tentar construir uma. Um bom escocês — de preferência da ilha de Islay, intensos, marcantes, com aquele fundo de turfa que parece que alguém guardou a memória de uma fogueira dentro do barril — era um prazer que ele não submetia a nenhuma análise crítica, da mesma forma que não se analisa criticamente o pôr do sol sobre a pampa. Algumas coisas existem para ser recebidas, não interpretadas, e ponto.

Tinha, porém, uma fraqueza paralela e assumida pelo Jerez espanhol — aquele amontillado seco, cor de âmbar velho, que os espanhóis fazem com aquela arrogância tranquila de quem sabe que está certo. O Single Malt é a solidão que sabe de si, costumava dizer, o Jerez é a conversa que não precisa de assunto. Nos dias bons, começava pelo golfe, continuava pelo escocês e terminava pelo espanhol. Nesses dias, o mundo era um lugar perfeitamente administrável.

Na varanda, parou para olhar para o jardim. Um teiú atravessava o canteiro com a dignidade de quem não tem pressa porque o universo pertence a quem sabe esperar. Fontana simpatizou. Se processo levantasse pra dar uma de cachorro, um “senta aí” resolvia a questão e o lagarto seguia frio e tranquilo na busca do destino que lhe aguardava.

Havia uma página no caderno com uma só palavra no topo, Quaraí.

Fontana ficou olhando para ela um tempo longo, com aquela expressão que não é tristeza mas é parente próximo — como se a saudade fosse uma língua que o corpo fala quando as palavras não chegam. Quaraí estava lá na fronteira, naquela dobra do mapa onde o Brasil e o Uruguai trocam sussurros e o espanhol e o português se enroscam na mesma frase para parir algo muito particular. Era uma cidade que ele carregava no peito como um sotaque que nunca saiu completamente, mesmo depois de décadas de Porto Alegre e de Vila Capuz do Monge.

Tinha saudade do rio no fim da tarde, daquela luz horizontal que transforma tudo em cobre. Saudade das ruas largas e devagar, do silêncio que não é vazio — cheio de pampa, de vento, de tempo que passa em velocidade diferente. Saudade de coisas que o corpo já não fazia mais. Aos noventa e dois, só conseguia memórias

Quaraí me ensinou que a fronteira não é um fim, escreveu, é um sotaque. É o lugar onde duas coisas se tocam sem se engolir. Olhou para o que tinha escrito, satisfeito. Depois acrescentou: e me ensinou a tomar mate sem fazer cara de quem está bebendo remédio amargo, o que também é uma forma de sabedoria. Até hoje Fontana usa aquela pura folha castelhana, amarga tipo a doçura das manhãs. Processo, como se tivesse lido por cima do ombro, abanou o rabo uma vez.

Depois vieram os filhos. Fontana virou a página com cuidado, como quem abre uma gaveta onde guarda coisas que não quer amassar.

Dois filhos. Dois humanos que ele havia colocado no mundo sem manual de instruções, porque manual de instruções para filho não existe, e quem diz que existe está vendendo alguma coisa.

Um tinha herdado o gosto pela música e a teimosia de não admitir quando estava errado. Reconheço de onde vem, escreveu Fontana, sem julgamento e com considerável culpa paterna bem-humorada. Pai e filho tinham passado anos aprendendo a conversar sem brigar — e quando finalmente aprenderam, descobriram que adoravam fazer as duas coisas, conversar e brigar, desde que fosse sobre coisas que importavam.

O outro herdou a precisão da mãe arquiteta e o socialismo do pai, combinação que o tornara uma publicitário com convicções inabaláveis sobre comunicação popular e uma intolerância orgânica para projetos que tratavam o pobre como detalhe na existência. Fontana o ouvia falar de trabalho e reconhecia, com aquela mistura de orgulho e inveja que só os pais entendem, que ela havia chegado a conclusões que ele levara décadas para alcançar.

Dois filhos, releu. O melhor investimento de longo prazo que já fiz. E olha que fiz alguns investimentos questionáveis em todas as áreas.

Mas foi quando escreveu o nome da neta que a letra mudou levemente — ficou um pouco maior, um pouco mais redonda, como se a mão soubesse que estava escrevendo algo diferente.

Aos cinco anos e já tinha a teoria de que toda pedra no jardim é potencialmente um tesouro, que os cachorros entendem tudo o que a gente fala e só fingem que não, e que o avô sabe de coisas importantes que as outras pessoas ainda não descobriram. Essa última teoria era a favorita de Fontana, evidentemente.

A netinha, hoje mulher feita, havia feito algo que décadas de filosofia, arte e direito e militância não tinham conseguido: reinstalou nele o espanto. Não o espanto intelectual, aquele que se tem diante de uma boa tese ou de um argumento elegante. O espanto físico, de corpo inteiro, o espanto de olhar uma formiga carregar um galho e achar aquilo a coisa mais extraordinária do universo. Fontana descobrira que tinha se esquecido desse espanto em algum lugar depois do mestrado e do doutorado, e que a menina o devolvera de presente, sem saber que estava devolvendo, que é a forma mais generosa de dar.

Quando ela nasceu, escreveu, descobri que a vida tem recurso. Que dá pra interpor embargos contra a finitude. Sorriu para a própria metáfora jurídica. Processo rosnou suavemente no sonho que despretensiosamente sonhava. Às vezes Fontana achava que o cachorro entendia mais do que deixava transparecer, talvez a neta já aos cinco anos tivesse razão.

Havia uma entrada no caderno que ocupava apenas meia página mas que Fontana havia reescrito três vezes, porque algumas verdades precisam de rascunho.

As mulheres.

Não apenas as quatro que havia desposado com cerimônia e esperança e, em pelo menos dois casos, com uma ingenuidade que ele hoje achava comovente. Todas elas. A mulher como fenômeno, como presença, como a forma mais sofisticada que a existência havia encontrado o modo de se manifestar no mundo. Pensava nos tempos em que se engajara nas causas feministas que alguns diziam ser coisa de veado! Sempre Fontana deu de ombros a esses preconceitos esdrúxulos mas que fazem um estrago gigantesco.

Fontana amava as mulheres com aquela espécie de admiração que não é posse nem fetiche, mas reconhecimento — como quando se lê um parágrafo muito bom e se para pra reler antes de continuar. Amava a inteligência, que costumava ser mais rápida e mais precisa que a masculina e que elas, com frequência, disfarçavam por educação ou por estratégia ou por pura misericórdia, com o ego alheio. Amava a forma como as mulheres carregavam o mundo, não heroicamente, não com fanfarra, mas com aquela persistência de rio que não anuncia o que vai corroer, corrói.

Aprendi mais com mulheres do que com qualquer livro, escreveu. Depois acrescentou, entre parênteses, com a honestidade de quem faz balanço final: (e com alguns livros escritos por mulheres aprendi as duas coisas ao mesmo tempo.)

O que o conduziu naturalmente à literatura, que no caderno de Fontana não era um capítulo separado das mulheres, da música, das artes visuais, da política ou do golfe, porque para ele a literatura nunca foi um departamento da existência, era o ar que circulava entre os departamentos.

Lera tudo o que pôde, na ordem e na desordem que a vida permite. Borges, que o ensinara que o labirinto não é uma metáfora do desespero, mas da elegância. Clarice, que o ensinara que a língua portuguesa guarda coisas que o português comum não consegue dizer e que é preciso forçar a sintaxe até ela confessar. Drummond, que o ensinara que a pedra no meio do caminho não é obstáculo, é o poema. García Márquez, com quem dividiu a convicção de que o realismo é uma limitação da imaginação. E Rosa, João Guimarães, que o ensinara que o sertão é o mundo e o mundo é o sertão e que a frase mais curta é frequentemente a mais longa porque nunca termina de abrir.

A literatura, escreveu Fontana, é o único lugar onde se pode ser simultaneamente o juiz, o réu e o advogado de defesa. E onde a sentença nunca é definitiva porque o leitor sempre pode apelar.

Aqui Fontana parou, pousou o lápis, e ficou um tempo olhando para a parede interna da varanda, onde pendurava três de seus quadros. Apenas três, os que considerava honestos o suficiente para aguentar o olhar diário sem envergonhá-lo.

Os outros estavam espalhados pelo mundo com a desenvoltura de quem não foi consultado sobre o destino.

Havia um num corredor do Museu de Arte do Rio Grande do Sul — uma tela grande, de azuis violentos que brigavam com ocres calmos, que um curador havia descrito na época como tensão entre o coletivo e o íntimo e que Fontana havia descrito, na mesma época e para a mesma pessoa, como uma briga que tive comigo mesmo numa tarde de 1987 e que decidi não resolver. Os dois tinham razão. Essa era a questão com a arte: ela comportava todas as interpretações verdadeiras ao mesmo tempo, o que a tornava mais democrática que qualquer sistema político que Fontana havia estudado.

Havia outro numa biblioteca pública de Quaraí. Uma aquarela da pampa ao entardecer, aquela luz de cobre que ele carregava na memória desde a infância, transposta para o papel com a nostalgia precisa de quem sabe que não vai mais ver o original. A diretora da biblioteca havia lhe escrito uma carta dizendo que as crianças da cidade passavam na frente do quadro depois de pegar os livros e o olhavam em silêncio, o que Fontana considerava o elogio mais alto que uma obra poderia receber: o silêncio de criança é admiração pura, sem protocolos ou vícios.

Devo ter filhos que não sei que tenho, pensou, com uma satisfação levemente escandalosa, em tela e óleo, espalhados pelo Rio Grande como sementes que o vento levou sem me pedir permissão. Era uma sensação de imortalidade estranha e perfeita, não a imortalidade do nome nos livros de história, mas a imortalidade de estar presente no cotidiano de pessoas que nunca saberiam seu sobrenome completo mas que, num dia qualquer de cansaço ou tristeza ou alegria inesperada, levantariam os olhos para aquela mancha de cor na parede e sentiriam alguma coisa que não conseguiriam nomear, que era exatamente o que a arte devia fazer.

Foi aí que Hescremêncio apareceu, como sempre aparecia, sem avisar, sentando-se na cadeira vazia ao lado com a intimidade de quem nunca precisou de convite porque nunca havia precisado de convite para nada na vida imaginária que levava.

Hescremêncio era o parceiro de toda uma existência, o interlocutor que Fontana havia inventado, ou encontrado, ou convocado, dependendo de qual filosofia da mente se adotava para explicar o fenômeno. Tinha um nome que parecia tirado de uma aposta perdida num cartório de registro civil e uma opinião formada sobre absolutamente tudo, especialmente sobre as coisas das quais não entendia nada, que era quando ficava mais convincente.

A especialidade de Hescremêncio — aquilo que o fazia rir até chorar, até dobrar-se sobre si mesmo, até precisar segurar a cadeira para não cair — era o tal de gauchismo. Em algum lugar Fontana havia escrito: estes tais de “ismos” são como gafanhotos em nuvem de destruição.

Não o Rio Grande do Sul real, com sua complexidade, sua imigração alemã e italiana, e coberto de “pelos duros” até a medula, sua fronteira com o Uruguai e a Argentina – alguns ainda dizem que faz fronteira com o Brasil -, sua música plural, suas cidades industriais, seu campo imenso e sua gente diversa. Esse Rio Grande, Hescremêncio respeitava com seriedade. O que o derrubava na gargalhada era o gauchismo como performance — aquela elaborada encenação identitária em que o chimarrão vira objeto litúrgico, a bombacha vira traje nacional, o Farroupilha vira religião cívica e o gaúcho mítico a cavalo vira a medida de todas as coisas humanas, incluindo a culinária, a jurisprudência e o valor moral das pessoas. Isso tudo, dizia Hescremência, com a plena concordância de Fontana: é a transição cabal do popular para o vulgar, é o amor pela representação que abandona o representado.

Olha ele, dizia Hescremêncio, invisível, mas perfeitamente audível para Fontana, toda vez que aparecia algum exemplar do fenômeno, num discurso político recheado de metáforas campeiras, num anúncio de churrasco que prometia a tradição dos pampas numa churrascaria de shopping, numa rede social onde alguém postava a foto da pilcha com a seriedade de quem registra a investidura presidencial. Olha ele, Fontana. A pampa chegou até o Beira-Rio. A história do Rio Grande do Sul começa em 1835 e termina em 1845 e tudo o mais é nota de rodapé.

Fontana ria junto, invariavelmente, porque o riso de Hescremêncio era contagioso da forma que só o riso dos amigos imaginários consegue ser, sem constrangimento, sem audiência, sem a necessidade de explicar a anedota para ninguém.

O problema do gauchismo, teorizava Hescremêncio nos momentos mais filosóficos, não é que seja falso, é que é verdadeiro demais em relação a uma coisa só. É como se alguém decidisse que a identidade inteira de uma pessoa é o chapéu que usa. O chapéu pode ser bonito. O chapéu pode até ser importante. Mas a pessoa é também os bolsos, os joelhos, o que carrega dentro e o que deixou para trás.

Fontana havia registrado no caderno, anos atrás, uma frase que atribuía a Hescremêncio e que considerava a síntese mais precisa da questão: Gaúcho de verdade não precisa se vestir de gaúcho, gaúcho de verdade caga igual a todo mundo.

Hoje, na varanda, olhando para o caderno amarelo quase completo, Fontana sentiu a presença de Hescremêncio ao lado como sempre, aquele peso específico de companhia que não precisa falar para ser companhia. E pensou que um dos luxos mais subestimados da vida longa era carregar consigo, por décadas, um interlocutor que nunca envelhecia, nunca adoecia, nunca tinha um dia ruim, e que estava sempre disponível para rir das mesmas coisas com a mesma intensidade da primeira vez.

Obrigado, disse Fontana baixinho, para a cadeira vazia.

Havia nela uma qualidade de silêncio diferente do silêncio comum, mais cheio, mais quente, mais parecido com uma gargalhada contida.

Uma página no caderno ele havia deixado para quase o fim, com a cautela de quem sabe que certas contas são as mais difíceis de fechar.

Amigos. Relações. Lealdades.

Amigos, Fontana tivera poucos. Não por defeito de caráter nem por falta de tentativa, mas porque amizade verdadeira é aquela que suporta o atrito, que sobrevive ao desacordo, que permanece quando não há mais nada a ganhar; é uma planta de clima exigente que não cresce em todo solo.

Ele contava nos dedos de uma mão os homens e mulheres que saberiam, sem precisar ser avisados, que ele havia morrido naquela manhã, e que sentiriam isso no corpo antes de receber qualquer notícia. Poucos.

Enquanto eu estiver te mandando tomar no cu, tamo bem! Fontana repetia para logo concluir: se eu ficar em silêncio e virar as costas pra ti, é porque o respeito se foi. Isso estava escrito em letras garrafais.

Relações, essas sim, Fontana tivera centenas. A vida de advogado, professor, músico, artista plástico, articulador político e frequentador assíduo de campos de golfe produz uma rede social de proporções barrocas. Conhecia juízes e garis, senadores e pedreiros, reitores e jogadores de sinuca, sommelier de whisky escocês e tropeiros que nunca tinham saído do município. Com todos conversava com a mesma atenção e respeito, porque havia aprendido cedo, talvez em Quaraí, talvez em Sócrates, talvez nos dois ao mesmo tempo, que a dignidade e a inteligência não tem endereço fixo e aparece onde bem entende.

A lealdade, porém, era outra conta. A lealdade, escreveu, não é virtude. É estratégia de sobrevivência. Parou. Releu. Acrescentou: e às vezes é as duas coisas ao mesmo tempo, que é quando funciona de verdade. Fontana havia aprendido que um homem leal num mundo de conveniências é uma anomalia tão valiosa quanto rara, e que cultivar essa anomalia em si mesma era o único investimento que jamais havia dado prejuízo. Não porque a lealdade fosse sempre recompensada, não era, frequentemente não era, e ele tinha cicatrizes específicas para provar. Mas porque um homem que abre mão da própria lealdade para sobreviver sobrevive, sim, mas vira outra coisa, e essa outra coisa não o interessava.

Tive poucos amigos, releu. Centenas de relações. A lealdade como bússola. Fechou os olhos um instante.

A docência mereceu um parágrafo especial, marcado com uma estrela vermelha.

Professor, orientador, Fontana tinha uma teoria sobre ensino que jamais publicou formalmente mas que praticava com consistência monástica: o professor que não aprende nada com o aluno é um padre fazendo monólogo. Suas aulas de Teoria do Direito, o de Teoria Geral do Processo eram famosas por começar pelo cânones do direito universal e terminar por caminhos que os alunos jamais conseguiam mapear depois, em alguma coisa sobre música popular brasileira, Portinari, acidentes de trânsito e os jogos do Grêmio ou do Internacional.

Uma vez um aluno perguntou qual era o nexo entre a autopoiese de Luhmann e o Clube da Esquina. Fontana ficou em silêncio por trinta segundos completos, um silêncio que os alunos mais tarde descreveriam como grávido, e então disse: o nexo é que ambos observam o sistema de fora para transformá-lo de dentro. Milton Nascimento é Luhmann com violão. Ninguém entendeu completamente. Todos saíram convictos de que haviam entendido.

A parte política do caderno ocupava mais páginas do que Fontana esperava — não porque tivesse sido político, mas precisamente porque não tinha sido, e essa recusa tinha sido, em si, uma posição política das mais exigentes.

Durante décadas, Fontana foi daqueles homens que entram numa sala de poder e imediatamente começam a reorganizar a geometria das cadeiras, não por vaidade, mas porque sabia que quem controla a disposição das cadeiras controla o fluxo da conversa. Era um estrategista nato, e sua estratégia tinha um princípio que irritava profundamente os pragmáticos: o bem comum não é um slogan, é uma equação. E equação se resolve, não se declama.

Os convites para candidaturas vieram com regularidade perturbadora ao longo dos anos. Vereador, deputado estadual, uma vez até uma sondagem envergonhada para cargo federal que chegou por interposta pessoa num almoço de domingo, o convite vinha de gente importante, que, escreveu, anos depois foi parar no xilindró. Entre parênteses estava escrito: eu avisei.

Fontana escutava com atenção, elogiava a confiança, pedia uma semana para pensar e então declinava com a gentileza cirúrgica de quem sabe exatamente o que está recusando e por quê; a semana para pensar era só questão de educação, sempre soube onde não queria estar.

Não entro porque entrando viro engrenagem, explicava, geralmente para quem não queria ouvir. E engrenagem não escolhe a direção da máquina. O trabalho de bastidor exige vaidade zero e convicção absoluta, combinação rara como inverno quente no pampa.

Políticas de habitação, de cultura, de acesso à justiça — Fontana estava em todas elas, na forma de pareceres, de artigos, de telefonemas às onze da noite para um secretário que não sabia como justificar juridicamente uma medida que era certa, mas que o código não tornava óbvia. Cobro dos ricos para assessorar os que fazem não querem o mal, dizia, para quem, com discurso socialista de aparência enriqueceu às custas dos pobres e lhe tiravam satisfação por advogar para empresários e gente rica.

Seu socialismo era daqueles sem manual. Não era o socialismo de quem leu muito Marx numa república universitária fria e nunca mais atualizou o firmware. Era o socialismo de quem sabia que a teoria mais bonita do mundo não vale um prato de arroz chegando quente na mesa de quem tem fome.

Fui socialista até a medula, releu Fontana em voz alta. Parou. Rabiscou o “fui” e escreveu “sou”. Noventa e dois anos e ainda corrigindo a própria escrita. Bom sinal.

O sol havia subido o suficiente para aquecer a varanda quando Fontana chegou à última página do caderno. Fez a soma. Não em números — números são para balanço patrimonial, e vida não é empresa, por mais que alguns insistam. A soma era outra: quantas vezes havia agido com integridade mesmo quando era inconveniente? Quantas vezes havia escolhido o difícil porque era o certo? Quantas músicas havia terminado? Quantos alunos havia empurrado gentilmente para dentro de si mesmos? Quantas mulheres havia olhado com a admiração que elas mereciam? Quantos livros havia lido até a última linha? Quantas tacadas havia dado sabendo que ia errar e tacando assim mesmo? Quantas famílias acordavam toda manhã com ele pendurado na parede, participando da vida delas sem ser convidado?

Quantas mãos havia segurado no escuro?

O resultado não cabia numa linha. Transbordava para as margens, para as páginas anteriores, para fora do caderno e para dentro do jardim onde o teiú ainda passeava imperturbável e Processo dormia esticado como um tapete de pelo curto e orelha torta.

Deu lucro, disse Fontana em voz alta. Processo abriu um olho, abanou o rabo duas vezes e voltou a dormir: aprovação canina, o mais honesto dos vereditos.

Então Fontana fechou o caderno.

Levantou-se da cadeira de vime com a lentidão que noventa e dois anos exigem como taxa de embarque, foi até o jardim e colheu, com aquela precisão botânica de quem pesquisou o assunto com antecedência e alguma alegria mórbida, as folhas que havia cultivado discretamente no canto mais sombreado do canteiro. Cicuta, Conium maculatum, para os taxonomistas. Para Fontana, simplesmente o gesto final de um homem que levou a arte a sério, porque morrer, quando se é artista, também deve ser uma obra, não precisa título, como a maioria das obras de Fontana que não tinham título, mas obra merece ser assinada.

Preparou a infusão com calma, sem drama, com a mesma atenção com que preparava um mate ou destampava um Lagavulin de dezesseis anos. Havia naquele gesto uma teatralidade que ele reconhecia e aprovava. Não era suicídio, era mise en scène, Sócrates aceitando a taça não porque havia perdido, mas porque sabia que os vencedores de certas batalhas são os que escolhem como deverá ser o final.

Antes de beber, abriu o caderno amarelo na última página em branco, a única que havia deixado vazia intencionalmente, como se soubesse desde o início que precisaria dela. Pegou o lápis. E com aquela mão que havia escrito pareceres jurídicos, composto letras de música, moldado barro ao lado de Neusa, ensinado gerações de juristas a pensar e pintado telas que agora acordavam com famílias que nunca o haviam conhecido, Fontana riscou no papel o perfil de Sócrates. Traços rápidos, perceptíveis ao observador menos atento.

Não o Sócrates dos bustos solenes dos museus, o Sócrates vivo, nariz largo, testa generosa, barba por fazer, o olhar que parecia estar sempre na iminência de fazer aquela pergunta inconveniente. O perfil de um homem que sabia que não sabia, e que esse era o único saber que valia alguma coisa.

Olhou para o desenho, um bom perfil.

Da cadeira vazia ao lado veio, inequivocamente, o som de uma gargalhada contida, Hescremêncio aprovando a escolha, ou talvez rindo do fato de que um gaúcho da fronteira havia escolhido um ateniense como última companhia, claro, teria dito Hescremêncio, se falasse em voz alta. Claro que sim. Porque Sócrates nunca usou bombacha.

Fontana sorriu.

Fechou o caderno pela última vez.

Bebeu.

Voltou para a cadeira de vime.

E ela chegou.

Casaco bege de linho, um pouco amassado, como de quem acabou de chegar de viagem longa. A morte sempre era pontual, isso sim. Bateu na cancela do jardim sem nenhum drama.

Fontana a viu vindo pelo caminho de pedras entre o jasmineiro e a hortênsia. Reconheceu-a imediatamente, não pela aparência, mas pela qualidade do silêncio que ela carregava na frente, um aviso cortês.

Pousou o caderno na cadeira. Olhou uma última vez para o jardim, o teiú, o jasmineiro, o pote de Neusa na janela, Processo dormindo com a orelha em dúvida resolvida por fim no chão. Pensou em Quaraí e na luz de cobre sobre o rio. Pensou nos filhos e na guitarra misturada com as raivas justas e produtivas, pensou na netinha, sua pedra do tesouro, nas mulheres todas, nas páginas todas, nas tacadas todas, nos copos de Islay e de Jerez, nos rascunhos que não viraram livros mas viraram conversas que eram melhores que livros. Pensou nos poucos amigos que sentiriam no corpo antes de saber da nova caminhada. Encontrou no coração todas as famílias que naquela manhã, em bibliotecas e corredores e salas de estar levantariam os olhos para um quadro cor de azul violento ou pampa de cobre e sentiriam alguma coisa sem nome.

Hescremêncio rindo na cadeira vazia com aquela gargalhada inaudível e perfeita. O perfil de Sócrates deixou na última página como um ponto final que era também uma pergunta.

A Morte chegou ao degrau da varanda e o olhou com aquela expressão neutra de quem não tem pressa, ela nunca tem, a morte não se importa com as ansiedades ou com o tempo.

Fontana endireitou levemente na cadeira, cruzou os braços sobre o peito com a naturalidade de quem recebe um velho conhecido e, desta vez, um há tanto esperado. Processo, sem abrir os olhos, abanou o rabo uma última vez — como quem diz vai não, mas tá bem.

E Fontana disse, com o sotaque da fronteira, o sorriso de quem ganhou a aposta e a leveza específica de quem escolheu a própria saída:

— Buenas.

Contam que naquela tarde o jasmineiro floresceu fora de época. Processo ficou na varanda até escurecer, o focinho pousado sobre o caderno amarelo, a orelha em dúvida finalmente em paz.

Naquela mesma manhã, num corredor do Museu de Arte do Rio Grande do Sul, uma criança parou diante de uma tela grande de azuis violentos, puxou a mãe pela manga e disse: esse quadro está rindo. A mãe olhou, não viu nada de especial,

Numa pequena gaveta, uma pedra que Lily havia dado ao avô numa tarde de jardim. Uma pedra cor de terra, sem nenhuma característica especial, a pedra-tesouro.