Quem vive cultura, com o bolsonarismo não convive
Antes de fechar as portas de um teatro, é possível esvaziar o sentido de sua existência. Basta repetir que arte é privilégio, que artista é parasita ou maconheiro, que dinheiro destinado à cultura é dinheiro roubado de alguma necessidade mais urgente. Quando a porta finalmente se fecha, parte da plateia já foi convencida de que não perdeu nada. O bolsonarismo soube explorar esse mecanismo: transformar o abandono em virtude e o ressentimento em política.
Entre 2019 e 2022, a cultura brasileira enfrentou um governo que fez da hostilidade ao setor uma marca de identidade. A extinção do Ministério da Cultura, logo no início do mandato, deu forma administrativa a esse desprezo. Rebaixar a cultura significava também diminuir sua presença na vida pública, enfraquecer sua legitimidade e apresentar como supérfluo o trabalho de quem produz a imaginação e preserva a memória de um país.
Na vida cotidiana, essa política tinha endereço e chegava à companhia sem condições de estrear, ao técnico sem trabalho, ao projeto que não saía do papel. Atingia quem pesquisa, restaura, ensina, escreve, dança, pinta. O ataque ao artista famoso servia de espetáculo! Os efeitos alcançavam uma multidão de trabalhadores sem visibilidade para denunciar o próprio desaparecimento profissional.
Mas havia algo além do desprezo. A liberdade de criação incomoda um projeto de poder que deseja estabelecer uma única versão da pátria, da família e da fé. Uma obra pode revelar o que o discurso oficial esconde, pode conferir dignidade a quem foi condenado ao silêncio, pode tornar insuficiente aquela explicação confortável com que uma sociedade aprendeu a justificar suas violências. Para o autoritarismo, essa abertura sempre é uma ameaça. Que as cortinas não se abram! Assim agiram, e estão aí de volta para continuar com as pretensões totalitárias.
É nesse ponto que o mundo “conservador” e parcelas do campo que se apresenta como liberal e democrático precisam responder por sua rendição. Ao se ajoelharem diante do bolsonarismo, ajudaram a corroer uma das grandes conquistas da modernidade burguesa, inscrita nas próprias promessas do liberalismo: a liberdade de consciência e de expressão, amparada pela separação entre autoridade religiosa e poder do Estado. Uma conquista incompleta, atravessada por exclusões e ampliada por lutas que a própria burguesia muitas vezes combateu. Ainda assim, um princípio decisivo: nenhuma igreja, governo ou maioria pode se arrogar o direito de tutelar a consciência de todos. Em nome de conveniências econômicas e eleitorais, esses liberais aceitaram negociar a liberdade que diziam defender, e terminaram vendendo a alma e a entregando ao tal messias da ocasião; pobre Fausto!
Essa capitulação também abriu espaço para que lideranças e setores políticos evangélicos neopentecostais aliados ao bolsonarismo projetassem suas disputas religiosas sobre as instituições e a cultura. A questão não está na fé dos fiéis, nem na legitimidade de sua participação pública. Está na pretensão de converter uma moral religiosa particular em regra obrigatória para uma sociedade plural. Quando a crença reivindica o poder de determinar qual arte pode existir, quais corpos podem aparecer e quais tradições merecem respeito, a disputa passa a ser por dominação religiosa. A liberdade de culto é traída quando serve de argumento para restringir a liberdade alheia.
Nesse ambiente, a cultura se torna um alvo porque abriga justamente aquilo que o projeto de dominação não consegue tolerar, a convivência entre diferenças que não precisam pedir e não pedem licença para existir. No terreiro, no palco, na literatura, no cinema, nas telas manchadas, o Brasil escapa às tentativas de reduzi-lo a uma identidade obediente.
Quem vive cultura, com o bolsonarismo não convive, e se por estupidez aceitar conviver, não sobreviverá. A frase denuncia uma incompatibilidade entre a criação livre e a política da submissão. Sobreviver, aqui, é poder trabalhar, preservar a memória, disputar sentidos e imaginar futuros. Um país que entrega essas possibilidades ao arbítrio de governantes e púlpitos pode até manter seus teatros abertos, mas, ajoelhado, terá aprendido a baixar a voz dentro deles.