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Ricardo Giuliani

Crônicas

POR QUEM DOBRAM

Boa Ventura amanhecia decente. Cidade de fim de mapa, ali onde o Brasil se dobra contra o Uruguai e finge que termina, gente de missa cheia e sala encerada pras visitas que nunca chegam. Sociedade conservadora e discreta, todos sabiam de tudo. Corria eleição. Santinhos no barro, bandeiras nos postes, o de sempre.

Então veio a água. Diziam de um aditivo no reservatório, uma sujeira que subiu pela torneira e desceu pela alma. De um dia pro outro a cidade rachou ao meio. Portas adentro, a devassidão sem freio, marido e mulher se lambuzando com quem aparecesse, o pudor mandado às favas. Porta afora, viravam juízes, mediam a bainha alheia, contavam pecados nos dedos com a boca lambuzada da própria devassidão. O prefeito, que à noite alugava a mulher a quem melhor pagasse, de manhã mandou fechar o cinema por um beijo na tela. Até o pobre anjinho de barro teve o pintinho tapado pelas marocas da urbe: “indecência máxima, imaginem”, diziam umas pras outras.

Sobravam poucos comunistas em Boa Ventura. Velhos, cansados, eu no meio. Fontana, que atravessou Vargas e os generais e agora só queria o mate e o silêncio da varanda. Vieram nos buscar primeiro. Tinha lista, tinha carimbo, tinha um rapaz de prancheta anotando nome e hora, tudo muito em ordem.

Como éramos poucos, a lista não durou. Passaram aos homossexuais, às mulheres da rua de baixo, aos ciganos do acampamento na entrada, aos três ou quatro judeus que a cidade sempre soube contar. Os cartazes da eleição seguiam nos postes, dente branco, ordem e família, enquanto a praça se enchia pro corredor. A dobra do rio virou altar. Do alto do perau, jogavam. Antes, duas fileiras de gente conhecida, cabo de enxada e cano na mão, a pessoa passando no meio e apanhando de ponta a ponta. Muitos chegavam à borda já sem peso, já sem grito, e pro rio sobravam os restos. Alguns boiavam rio abaixo, na direção do Uruguai, fronteira que já não separava nada.

Havia horário. Começava depois do almoço, pra praça ter tempo de encher. Vendia-se sanduíche e refrigerante. As crianças assistiam do muro do cemitério, os velhos se empurravam pra conquistar a melhor vista.

Era cidade pequena. Cada braço que erguia o cano tinha comido, algum domingo, na mesa de quem passava no corredor. Compadres, colegas de time, primos. Nunes, o padeiro que me pôs o pão na mão por trinta anos, media agora o cano contra o irmão, do outro lado da fila. O menino que se sentava atrás de mim no primário, homem feito, batia. A professora batia. Cada golpe tinha sobrenome que eu sabia soletrar.

A mim, prenderam primeiro e no tumulto esqueceram. Fiquei de lado, o único nome que a lista não riscou.

Deixaram o padre pro fim. Diziam vermelho, que benzia comunista, que na homilia falava em partilha e partilha era Moscou vestida de Evangelho. Trinta anos de missa, casou metade da cidade, enterrou a outra metade. Trouxeram de batina. Não correu, não pediu. Entrou no corredor rezando baixo, e a reza encurtava a cada golpe, até sobrar só o movimento da boca sem som. No perau já não era homem, era o que restava de um. Empurraram. O corpo dobrou no ar antes da água.

E acabou.

Acordei. Quarto escuro, ventilador parado, a cidade lá fora sem rio, sem perau, sem lista. Levantei sem acender a luz, pra não ver o rosto no espelho antes da hora. Na cabeceira, aberto de barriga pra baixo onde parei de ler, o Hemingway, os sinos dobrando por alguém desde muito antes de mim. A boca seca. O peito ainda no corredor.

Acendo um cigarro. A brasa é a única coisa acesa na casa, e por um instante basta. Puxo fundo, devagar. O pesadelo não inventou nada, só adiantou o relógio.

Contei os mortos do sonho pelo nome, um por um. Nunes, o padre, o menino do primário que virou carrasco e no fim também caiu. Todos me cobravam a mesma dívida. O sino não pergunta por quem dobra. Dobra.

Setenta e tantos anos, o joelho travando no frio do assoalho. Amanhã procuro os que ainda restam.