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Ricardo Giuliani

Crônicas

Suprema Conversa Hescremêncio

Tarde demais para uma Suprema conversa com Hescremêncio

Ricardo Giuliani

A forma chega com a violência que a estética bem urdida sabe apresentar; o conteúdo, bem, este se perde miseravelmente nas nuvens de maledicência e de lacrações. Um ministro do Supremo Tribunal Federal, mencionado em relatórios que ele próprio talvez devesse ajudar a julgar, comunicava-se com o banqueiro sob investigação por meio de fotografias de anotações feitas no bloco de notas do celular, respondidas em imagens de visualização única, programadas para desaparecer antes de qualquer rastro, ou, como diria Hescremêncio: somem antes do peido feder.

É uma linguagem estranha para mim, sim, eu disse estranha, não falei surpreendente. Reconheço a linguagem de quem, bem, vida de merda essa que nos encaminha para entender as coisas se tivermos boa vontade com o pensamento e com as latas de lixo que passam pelos nossos caminhos.

Acompanhei, como qualquer leitor de jornal, o momento em que essa descoberta se tornou pública, era um 1º de setembro, pela decisão do ministro Dré Migod’Onça de levantar o sigilo sobre as trocas entre Ale d’Varaes e do banqueiro Anel d’OuroCaro. Vi a última camada de verniz arrebentar sobre uma disputa que já corria, submersa, podre, havia meses dentro da Corte. Em menos de dez dias, vi o afastamento e a reintegração do diretor-geral da Polícia Sideral por ministros diferentes do mesmo tribunal, o cancelamento de sessões plenárias, a convocação de uma sessão extraordinária para o dia 43 e, sobretudo, a confissão pública daquilo que a liturgia do Supremo sempre tratou, a meus olhos, como impensável: eles têm bucho, diria, outra vez, Hescremêncio.

Sei de buchos, tripas e blocos intestinais, eles sempre existiram, gente, isso não é novidade nenhuma. Nenhum colegiado de onze votos delibera por unanimidade espontânea há décadas, nem a assembleia de condomínio do meu prédio consegue tanto na hora de decidir o rateio da portaria. O que mudou, para mim, foi a exposição do mecanismo que mantinha tudo invisível: a fantasia, cultivada por dentro e por fora da Corte, de que ali as divergências eram técnicas, nunca facção, nunca torcida organizada de time contra time. Essa fantasia morreu em setembro, diante dos meus olhos, e eu nem tirei fotografia porque sabia que ninguém ia acreditar de graça. Insisto em nomear o que veio no lugar, porque a política brasileira, diante de crise institucional, prefere sempre o eufemismo bonitinho ao conceito que dói, e eu, cansado de dourar pílula alheia, não me alinho a esse costume.

Digo pra minha parceira:

— Me passa o vinho, preciso de um trago forte nesta noite de terça-feira que não é de carnaval.

— Bota aí, falo em voz tenra, bota um Chico na vitrola. Quero ouvir aquela em que ele canta o samba e o amor a noite inteira e amanhece com sono, você sabe qual.

Hescremêncio, que é um intelectual, traz o conceito de bonapartismo, e promete não cobrar mensalidade pelas aulas. Enche a boca lambuzada de graxa de ovelha e senta a lição de Marx, descrevendo o conceito no Dezoito de Brumário como o momento em que classes em impasse recíproco, incapazes de resolver seu conflito pelas vias ordinárias, delegam a um poder situado acima delas a tarefa de decidir por todas. Esse poder não representa nenhuma das partes; arbitra entre elas, e da arbitragem extrai uma autonomia que nenhum mandato eletivo lhe conferiu.

— Vejo o Supremo brasileiro, nos últimos anos, instalado exatamente nessa cadeira, de pernas cruzadas, café em mãos — berra Hescremêncio do fundo do galpão, para logo complementar, entre uma chaira e a faca que afia pra descarnar a cabeça do capão assado na trempe castelhana:

— Não virou instância decisória de última palavra porque sua hermenêutica fosse superior, porém porque o sistema político, paralisado pela própria fragmentação, empurrou para a Corte decisões que deveria resolver sozinho, do jeito que empurramos para o vizinho a poda da árvore que cresceu torta no nosso próprio quintal. Essa estrumeira de autonomia cobra fatura e cobra caro!

Hescremêncio já vai indignado com aquela faca nas mãos e todos os comensais começam a recuar na medida em que avança na direção daquela cabeça de capão assado. Sem rodeio, sentencia:

— Quando o árbitro se revela também jogador, o edifício inteiro que sustentava sua legitimidade desaba de uma vez, sem aviso prévio nem seguro contra desastre. É a cagada sendo tapada com uma gloriosa e togada pá de bosta!

Recorro a um precedente histórico que, a meu ver, ilumina o mecanismo, guardadas as proporções e sem equiparar momentos de natureza tão distinta, porque comparação capenga também é um jeito de mentir com erudição; não minto, é lição do Hescremêncio, professor de vida e de como assar bem assadinho um capão com fogo firme.

Em 1932, o Reichsgericht de Leipzig foi chamado a julgar a deposição do governo prussiano pelo chanceler Franz von Papen. A Corte alemã, tentando arbitrar sem tomar partido, produziu sentença tão ambígua que satisfez ninguém e enfraqueceu a todos, inclusive a si mesma, façanha que parecia exclusividade germânica até este setembro. Von Papen calculava, como boa parte da direita conservadora daquele momento, que era possível usar instituições formalmente neutras para domesticar forças que a própria elite considerava passageiras, aposta que a história cobrou com as marcas que somente a chibata pode deixar no lombo dos inocentes. O cálculo fracassou porque subestimou a velocidade com que a autoridade das instituições evapora quando estas deixam de parecer imparciais. Não pretendo prever o mesmo desfecho para o Brasil de 2026. Prefiro reconhecer que cortes supremas, uma vez postas no centro do jogo político, não voltam incólumes para a arquibancada, ou por outras palavras, o rio jamais retorna à sua nascente.

Vi o episódio de fevereiro deste ano, quando surgiu a primeira ligação entre o banqueiro d’OuroCaro e um ministro do Supremo, ser tratado, dentro e fora da Corte, como acidente isolado, contornável por acordo de bastidores, tipo mancha em toalha branca que a gente lava rápido antes que a visita chegue. Já não aceito esse enquadramento para o episódio de setembro. Repete a mesma matriz, com outros nomes, em escala maior e com desdobramentos que a própria Corte não conseguiu conter internamente, a ponto de exigir sessão extraordinária e prazo formal de resposta. O que era exceção em fevereiro tornou-se protocolo em setembro. Para mim, essa é a diferença exata entre um erro e um vício de família, sim, repito, vício de famiglia.

Percebo também uma ironia de linguagem que me parece necessário registrar, porque rir de vez em quando ajuda a engolir o resto. Migod’Onça invocou a transparência para justificar a quebra do sigilo. Reconheço que fez bem em invocá-la, porque o sigilo que rompeu blindava, até então, tanto o colega Ale d’Varaes quanto ele próprio, e boa parte da confiança recíproca entre os ministros dependia exatamente dessa blindagem compartilhada, espécie de pacto de sócios, famiglia, que só funciona enquanto ninguém é pego com a boca na botija experimentando terno de trinta paus. Ao expor o colega, expôs também o método pelo qual o próprio tribunal vinha lidando com informações sensíveis sobre seus membros há anos. Segredo, por acordo tácito, sem regramento algum, nem mesmo aquele de que da medalhinha pra baixo é canela. A transparência que Migod’Onça reivindicou para si revelou, contra sua própria intenção, a opacidade estrutural da casa inteira; alguém diria: glória a Deus.

O vinho já vai meio alto e começo a me enroscar nas tetas da parceira e ela começa a se enrolar nos meus braços de quem faz samba e sexo a noite inteira. Segue rolando Chico na vitrola.

A imprensa brasileira, nesses dias, ofereceu, a meu ver, seu próprio sintoma, e sintoma feio costuma vir acompanhado de mau cheiro. Não noticiou uma crise; hospedou duas, pensão completa. Vi veículos alinhados a cada polo da Corte publicarem, quase simultaneamente, versões que se anulavam mutuamente sobre quem vazou o quê e a quem interessava o vazamento, espelhamento que me remete, com a devida distância histórica, à guerra de versões do caso Dreyfus. Naquela França do fim do século dezenove, perto de uma centena de jornais disputava Paris, e o affair não foi apenas coberto por eles, foi em boa medida fabricado por eles, com capricho artesanal. La Libre Parole abriu o caso em 1894 anunciando confissão que jamais existiu. Le Figaro reabriu a discussão três anos depois, publicando as acusações contra Esterhazy. L’Aurore, com o J’accuse de Zola e seus trezentos mil exemplares, cristalizou o país em dois campos que não voltaram a se falar nem no Natal. Um documento forjado por um oficial, o chamado falso Henry, circulou como prova antes de ser desmentido, e sua descoberta não devolveu confiança nenhuma a ninguém, só trocou de endereço a desconfiança.

Nisso ouço um grito imaginário de Hescremêncio:

— Eles sempre foram essa bosta! Bosta! Sempre foram!!!

A imprensa francesa não noticiava a disputa entre dreyfusards e antidreyfusards; era o ringue onde essa disputa acontecia, com direito a corner e tudo. Não vejo o paralelo com o noticiário brasileiro de setembro no conteúdo, seria leviano equiparar antissemitismo europeu a crise judiciária brasileira, vejo-o na estrutura. Um Judiciário fraturado encontra na imprensa não um espelho neutro, porém um segundo ringue, no qual o vazamento seletivo substitui a apuração e cada bloco, cada pedaço de tripa, cultiva seu órgão de confiança, quando não seu comentarista de plantão pago em elogio.

Hescremêncio pede no meu inconsciente: fala daquela vaca, aquela do Migod’Onça, fala!!!

Não vou falar. Ainda bem que o beijo vem dentro da orelha. O arrepio corre até a ponta do pé. Mais vinho. É Almaúnica, Tannat. Deixo a vaca de lado, que Hescremêncio berre pelas coxilhas, Eu não!

Não vejo nisso a primeira vez que o país ergue um deus da hora sobre a toga, aliás já perdi a conta de quantos santos improvisados esse país canonizou em rede nacional. Entre 2016 e 2018, Curitiba ofereceu ao Brasil seu primeiro santo laico: juiz que prendia banqueiro, empreiteiro, ex-presidente, protagonista de enredo que a imprensa de referência tratou como epopeia moral com trilha sonora incluída. Burromoro teve apóstolos, o procurador Putangnol à frente, força-tarefa inteira apelidada de República de Curitiba pelos próprios adversários, apelido que pegou porque tinha síndico, estatuto, e merda fedida, a merda era real, o fedor era produto da tal república, e tudo mais. Vi a queda vir pelo instrumento clássico que costuma derrubar deuses recentes, mensagens vazadas: em junho de 2019, diálogos tornados públicos mostraram o juiz orientando a acusação por fora dos autos, torcendo pelo próprio time enquanto apitava a partida. Burromoro largou a toga e virou senador da República, nome que já anuncia o destino desde a matrícula. Putangnol largou o cargo e virou deputado federal, idem. Vi Xande dos Varaes ser erguido pelo mesmo mecanismo entre 2019 e 2023, anteparo solitário contra o golpismo, condutor de inquérito transformado em escudo permanente contra ameaça sem precedente. Sete anos depois o escudo virou arma disponível a qualquer ministro contra qualquer colega, e é essa arma que vejo Migod’Onça empunhar hoje, com a lógica exata que consagrou Varaes ontem. Para mim, farsa que se repete não é farsa menor. É farsa que já decorou o próprio roteiro e dispensa ensaio.

Reconheço em Migod’Onça um ingrediente que nenhum dos dois deuses anteriores carregava, e aqui a piada escreve sozinha. Reverendo ou pastor ou pregador ou sei-bem-lá-o-quê, ordenado antes de jurista, pastor de ofício antes de ministro por indicação, teve sua aprovação no Senado, em dezembro de 2021, celebrada não em linguagem jurídica, porém litúrgica, com direito a coreografia. Três, dois, um, gravando, e o Espírito Santo, sempre disciplinado, entra em cena, e a contracena vem de Mikele Aleluiaro: ao lado dele, saltou, gritou aleluia, e passou a falar naquilo que a tradição pentecostal chama de glossolalia, a língua dos anjos que os Atos dos Apóstolos atribuem à descida do Espírito Santo sobre os primeiros cristãos, cena que nenhuma sabatina no Senado costuma prever no roteiro.

Berro de Hescremêncio, grudado no olho do capão, ainda sobrava um preso na caveira sobre a trempe:

— Uma pena essa coisa não estar na sabatina do Senado!

E repetiu três vezes, glossolalia, glossolalia, glossolalia.

Dias depois, em culto realizado dentro da própria Câmara dos Deputados, o novo ministro comentou publicamente as imagens e afirmou, sem meio-termo, que ali estivera o Espírito Santo de Deus, declaração que eu, advogado terreno de formação modesta, não sei processar sem um segundo café, ou melhor, sem mais uma garrafa de vinho e uma teta roçando meus lábios.

Considero que Estado laico existe justamente para que nenhuma autoridade fale em nome de mandato divino sem prestar contas a instância terrena alguma. Ingênuo Eu! Não?

Quando um ministro do tribunal encarregado de guardar a Constituição interpreta a própria posse como manifestação sobrenatural, a toga deixa de vestir função e passa a vestir vocação, categoria que considero mais perigosa por ser imune a qualquer crítica formulada em termos humanos. Discordar de juiz é, para mim, exercício republicano. Discordar de ungido soa blasfêmia, e blasfêmia dá processo em foro que a Constituição não previu. Reconheço nessa mesma gramática, a de quem fala por mandato que dispensa prova, o que reaparece agora na disputa com Varaes, cada lado convencido de cumprir missão superior à do colega, os dois com a mesma certeza de quem nunca perde no próprio filme. Pois então, lembro uma camiseta que Lobão ostentava por aí: peidei e não fui Eu!

Seria cômodo, de minha parte, atribuir tudo isso a duas vaidades em rota de colisão. Não me contento com essa leitura, seria preguiça de roteirista. Reconheço um terceiro ator que a crônica política costuma tratar de forma apressada: o mercado financeiro e a direita liberal que dele se alimenta, para quem um Supremo desacreditado, em ano eleitoral, vale mais como instrumento de barganha do que uma Corte respeitada valeria como obstáculo, tudo precificado, a palavra que eles adoram.

Não preciso imaginar conspiração de sala escura com charuto. Basta reconhecer interesse, esse motor tão banal quanto eficiente. Instituições fragilizadas negociam pior suas próprias condições, e sei que há quem lucre exatamente com essa fraqueza, calculadora na mão enquanto o país discute teologia em rede nacional. E enquanto isso tudo acontece, botamos uma ovelhinha pra assar no fundo de um galpão sobre uma trempe castelhana.

Não vejo ministros do Supremo como deuses da hora, e cansei de ajudar a acender vela para gente que depois esquece de agradecer. Considero isso erro do imaginário público, alimentado pela própria Corte em momentos de exceção como o oito de janeiro, e agora também pela linguagem religiosa que um de seus membros importou para dentro da função, com direito a milagre incluso. São juristas investidos de função, sujeitos à vaidade, ao cálculo de carreira, à disputa por espaço, exatamente como qualquer agente público de alto escalão que já cruzou meu caminho de toga ou sem ela. Reconhecer isso não diminui, a meu ver, a instituição. Diminui apenas a fantasia que se projetava sobre ela, fantasia que nunca foi condição para sua relevância. Continuo considerando o Supremo indispensável à contenção de rupturas autoritárias, à proteção de direitos que maiorias eventuais adorariam suprimir num domingo distraído, ao mínimo de previsibilidade que qualquer Estado de Direito exige para não virar apenas um prédio bonito em Brasília. Indispensável e, ao mesmo tempo, capaz de se corroer por dentro com a mesma velocidade com que se impôs por fora. Desculpem-me, peidei mas não fui Eu, tenho que repetir.

Hescremêncio, tentando me acalmar, recorre a Gramsci, e me conta que o corcunda escreveu, do cárcere, sem wi-fi e sem plateia, que o velho mundo agoniza sem que o novo tenha ainda nascido, e que nesse intervalo aparecem os sintomas mais mórbidos.

Esse mundo, indo na couve, mostrou o seu morrer nos primeiros dias de setembro, entre prints de tela, lacrações e sigilos quebrados, com show de línguas estranhas e tudo caminhando p’rum enterro sem flores.

O novo ainda não nasceu, e não sei se nascerá da sessão de dia 43 ou de alguma reforma que o país sequer começou a discutir, ocupado demais brigando nos comentários. No intervalo, reconheço os sintomas já aparecidos: tripas de toda ordem, um diretor de polícia afastado e reintegrado em vinte e quatro horas, feito troca de escala de plantão, um presidente de tribunal tentando arbitrar entre pares que já não se arbitram mais nem no cafezinho. Vejo o Estado sucumbindo à sua própria arquitetura mal resolvida, não há um inimigo externo, o que é, convenhamos, mais vergonhoso do que trágico.

Enquanto os dois blocos vestidos de tripas e togas se preparam para o que mais sabem fazer, digo a ela, me passa o vinho, te amo, trepemos. E curtimos Chico, fizemos samba e sexo até o amanhecer.

Nota de fontes: fatos e cronologia da crise brasileira com base em reportagens da BBC Brasil, Agência Brasil, CNN Brasil e Agência Pública, publicadas entre 7 e 10 de setembro de 2026, sobre a crise aberta pela quebra de sigilo das comunicações entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro no âmbito do caso Banco Master. O histórico do caso Dreyfus, incluindo a cobertura de La Libre Parole, Le Figaro e L’Aurore e o episódio do falso Henry, segue registros historiográficos consolidados sobre o Affair e sua cobertura de imprensa. Os episódios de Sergio Moro, Deltan Dallagnol e a Vaza Jato seguem a cobertura de The Intercept Brasil (junho de 2019) e Agência Brasil/EBC sobre a suspeição de Moro (2021). A cena de Michelle Bolsonaro e André Mendonça no Senado, em dezembro de 2021, e a declaração posterior do ministro sobre o Espírito Santo seguem cobertura da imprensa da época.

Nota metodológica: a pesquisa factual e histórica deste texto contou com apoio de inteligência artificial, com validação final do autor.