A bengala tocava o paralelepípedo antes do pé, um metrônomo de madeira anunciando a passagem. Dona Íris descia a ladeira da Voluntários todas as manhãs, melenas brancas soltas sobre os ombros, indiferentes ao vento que insistia em desarrumá-las.
Ninguém sabia sua idade ao certo. Os vizinhos mais antigos falavam de uma professora de latim que fechara a escola nos anos setenta, de um marido enterrado antes que a ditadura acabasse, de filhos que telefonavam do Canadá em datas comemorativas, histórias que se multiplicavam conforme quem contava.
O atendente a via passar e servia o café antes mesmo do pedido. Ela se sentava sempre na mesma cadeira, de frente para a rua, observando o comércio abrir, atenta aos detalhes que os dias sempre e sempre repetiam.
Chuvinha fina e um homem, que também bebia café, perguntou por que ela caminhava daquele jeito, compassado, quase musical.
Íris pousou a xícara.
– Porque pressa é coisa de quem ainda não perdeu nada importante.
O homem não entendeu. Ela sorriu, e o silêncio que se seguiu trouxe todas as explicações. Lá fora, a bengala esperava encostada na parede, o cabo gasto pela mão que a segurava há décadas, testemunha muda de um andar que hoje se limita a andar.
Terminado o café, Íris se levantou com a dignidade reservada aos octogenários, o corpo erguido em etapas, mãos firmes no encosto da cadeira, na mesa, na bengala. Ajustou as melenas, acertou o passo, e seguiu rua abaixo até a primeira lixeira do dia.
Ali, atrás do restaurante da esquina, vasculhou com as mãos enluvadas de frio. Latas amassadas, cascas, restos que outros chamavam de lixo e ela chamava apenas de material. No braço, uma sacola de nylon velho balançava, alça gasta, plástico desbotado pelas estações, era seu guardava-tudo.
O coletor passava às quintas. Trocava as latinhas por moedas contadas devagar, os dois entendendo o valor daquele ritual. Era o tesouro de Íris, não o que sobrara da vida, mas o que a vida ainda lhe permitia recolher.