Perdoai-me, brasileiras e brasileiros
conto fantástico
Ninguém soube dizer em que noite a catedral atravessou o oceano. Amanheceu no planalto como se ali tivesse sido erguida, a pedra gótica de Paris suando sob o sol vermelho de Brasília, as gárgulas cuspindo poeira em vez de chuva, os fiéis chegavam de longe para tocar a fachada e jurar que a sentiam respirar.
No alto das torres morava o sineiro, corcunda, meio surdo dos próprios sinos, feio a ponto de as crianças rezarem. Quasímodo amava aquela pedra como só ama quem nunca desceu à praça. Do parapeito ele via o Brasil inteiro, e o Brasil inteiro nem percebia sua existência.
Eu estava na praça naquele setembro, a vinte dias das eleições, e é do que vi e do que li que vou dando notícia. Os jornais falavam de uma Petição 16.662, de um banco que virara pó e de dezessete bilhões que ninguém achava. As redes só queriam a fogueira. A catedral, no entanto, fingia que a fumaça vinha de fora.
Foi lá em cima que Carmem Lúcia apareceu.
Descia dos vitrais uma diva, saia rodada, rosa vermelha entre os dentes, a voz treinada em óperas que o povo não entendia e mesmo assim aplaudia de pé. Carmem cantava para a praça e a praça derretia. Quasímodo, coitado, derretia mais que todos. Bastava ela erguer o queixo para o sineiro esquecer que existiam sinos.
Naquela manhã, chegou ao parapeito, abriu os braços e cantou o seu perdão.
Perdoai-me, brasileiras e brasileiros.
A nota subiu tão limpa que três beatas desmaiaram de emoção. Dizia-se envergonhada, dizia que o Judiciário existe para tranquilizar o povo e que a casa vinha produzindo intranquilidade. Nas redes, um colunista já a absolvia por escrito: nós te desculpamos, Carmem Lúcia. Quasímodo bateu palmas com as mãos tortas e acreditou em cada sílaba. Acreditar era o seu ofício, junto com o de tocar o sino na mesma hora todos os dias.
Os sinos, ali, tinham nome, e memória e horror do próprio som que produziam.
O mais antigo se chamava Domínio, fundido num bronze estranho, com uma hidra gravada no bojo: cortava-se uma cabeça de culpa e nasciam sete, cada réu respondendo pelo que talvez nem soubesse. Sábios de Göttingen vieram medir aquele sino e saíram dizendo que estava desafinado de nascença, que alguém torcera a liga de propósito para que dobrasse mais alto do que a justiça permitia. Quasímodo tocou aquele sino por anos. Carmem, na época, cantava junto, alegríssima, jurando que era pela felicidade do povo.
Perdoai-me, brasileiras e brasileiros.
Era o mesmo fôlego que outrora jurara felicidade.
Havia o sino da Presidenta, que dobrou quando uma mulher foi retirada do trono por contas que todo governante faz. Dobrou com técnica, dobrou dentro do rito, dobrou e lavou as mãos numa pia de pedra. Depois se soube que a conta era de todos. Inês, porém, já estava morta.
Perdoai-me, brasileiras e brasileiros.
O eco descia até a pia de pedra e voltava sujo.
E havia o sino de pressa, o mais infame, fundido em tempo recorde por três artífices que bateram o bronze em sincronia perfeita, cada martelada coincidindo com a outra como num disco de rock inglês sobre o acaso que não é acaso. Aquele sino mandou um homem para a masmorra antes que o processo respirasse. Anos depois, das próprias entranhas da catedral, uma voz reconheceu que a masmorra fora erguida no chão errado, por juiz podre que nada podia. Carmem havia dado a pá de cal, e a pá de cal ela deu cantando.
Perdoai-me, brasileiras e brasileiros.
E a praça, embevecida, nem contava os seis votos contra os cinco daquela madrugada de abril.
Ninguém desafina uma orquestra inteira por acaso.
Agora, no fundo do coro, cinco sinos novos rachavam ao mesmo tempo. Cheiravam a dinheiro, dezessete bilhões de fumaça e dois bilhões travados no cofre, e ao pé deles rondava um mercador de casaca, dono de um banco que virou pó, distribuindo abraços e envelopes e surubas e mansões com a mesma mão. Cinco togas manchadas pela mesma tinta: um que trocava recados com o mercador, outro que se dizia impedido e não saía da nave, um reverendo de sotaque de púlpito que caçava as próprias sombras, um cujo filho recebia mesada de rei, um que apenas apertava mãos. Turba, turba, turba de togas. Horror fugindo do campanário pré-ordenado.
Nos jornais, os cinco tinham nome e sobrenome. De um, contavam cinquenta e duas mensagens trocadas com o mercador. Outro fora relator e saíra de fininho, com um resort atravessado na história. O terceiro, o de púlpito, revelara o relatório e mandara cortar delegados com a precisão de um alfaiate de alta estirpe. Do quarto, diziam do filho num camarote de Carnaval, acerto e perguntas sobre agendas em Londres. Do quinto, de um filho com milhões em consultoria e um jato emprestado. Cada um negava o seu capítulo, todos no seu próprio púlpito, todos também nas pedras de Paris, ou seria Nova Iorque? A representação, essa, falava em gestão fraudulenta, em lavagem, em organização criminosa, e um detalhe se perdia no estardalhaço: acusação não é condenação, ou seria, suruba não é tipo penal?
Quasímodo olhava aquilo sem entender por que os sinos sagrados soavam como caixa registradora. Quasímodo segue adorando Carmem e Carmem segue se adorando.
Foi quando o mar chegou ao cerrado. Ao fundo soava, sem atrapalhar os sinos, Money com Pink Floyd no comando, tudo harmonizava os novos tempos.
Impossível, e, no entanto, ali estava uma frota no horizonte de terra vermelha, velas de um império do norte que fingia zelar pela liberdade enquanto media quintais alheios. Vinham persas de novo tipo, capacetes alaranjados, alguns se dizentes patriotas rezando em inglês, evangélicos falando uma língua estranha e que não honram os evangelhos, prometendo salvar a catedral do incêndio que eles mesmos ateavam nos porões. Traziam listas, queriam cabeças. Queriam e fizeram a praça em chamas.
Nas gárgulas, uma sombra grega assistia a tudo havia dois mil e quinhentos anos. Temístocles, general de Salamina, aquele que mandou queimar a própria cidade para salvar o que a cidade era. A sombra chamou o sineiro pelo nome torto.
— Quasímodo. Vais precisar acender uma fogueira.
O corcunda tremeu.
— Queimar a catedral, senhor?
— Queimar o que sobra. Em Salamina não salvei as muralhas, salvei os remos. Uma democracia não se defende na pedra, se defende no que a faz andar. Cuida para não jogar no fogo o que ainda te leva ao mar.
Quasímodo entendeu pela metade, que era o quanto sempre entendia, e correu para os sinos. A praça queria sangue de toga, e sangue de toga era fácil de dar. Cinco cabeças rolando no bronze fariam a multidão cantar por uma tarde. A sombra grega, porém, insistia num sussurro: cabeça exposta ao público não conserta nulidade nenhuma, apenas afia a guilhotina para a próxima estação.
A sessão terminou como terminam as procissões que não chegam a parte alguma: deu voltas e não saiu do lugar. Nada se arquivou, nada se resolveu, e a casa prometeu voltar ao assunto na semana seguinte: até as pedras sabem que não voltará.
Perdoai-me, brasileiras e brasileiros.
Do alto, afinadíssima, a voz insistia.
Lá embaixo, Carmem continuava o seu perdão, agora em tom maior, os braços abertos para os persas como para os fiéis, a mesma rosa entre os dentes. Cantava desculpas e recebia aplausos, e o sineiro, no alto, achava aquilo lindo, achava aquilo sincero, achava que bastava uma bela voz pedindo perdão para a pedra ficar limpa. A ingenuidade de Quasímodo era mais perigosa que a frota inteira. Amava a pedra, não os sinos.
Santa Luzia, padroeira dos olhos, olhou de um vitral. Do outro, Palas Atena, de lança e coruja, franziu a testa de mármore. As duas trocaram um aceno antigo, coisa de deusas cansadas de ver mortal fechar os olhos por vontade própria.
Então choveu.
Choveu sobre o cerrado como não se via chover sobre pedra de Paris, uma água que lavava a poeira das gárgulas e escorria pelas cinco rachaduras e pelo sino de pressa e pelo sino da hidra. Quasímodo, encharcado no parapeito, sentiu pela primeira vez os olhos arderem, e não soube dizer se era a chuva ou se eram Luzia e Atena fazendo, cada uma, o seu pulinho para que as pálpebras se abrissem.
Carmem calou a ária. Ergueu o rosto para a torre, procurou o sineiro na cortina de água. Por um instante os dois se olharam, a diva e o corcunda, o perdão e a fé, e nenhum dos dois pôde jurar que via o outro de verdade.
A frota esperava no horizonte. Os sinos, molhados, não soavam. E o Brasil, embaixo, aguardava para saber que fogueira aquela gente lá em cima ia enfim acender.