Ricardo Giuliani

Contos

TRÉGUA

Ela cai sobre a cama. Um guincho agudo e insistente sobe de dentro do edredom. Ela congela, os braços ainda abertos, o rosto virado para o teto. Ele não; a boca já desce pelo pescoço.

O guincho continua, decrescente, até calar.

Ela se levanta num salto, enfia a mão sob o travesseiro e puxa um elefante cor-de-rosa, do tamanho de um punho, trombinha achatada. É o elefantinho da filha. Como foi parar ali, na bolsa, no bolso do casaco, em algum lugar entre a creche e aquele apartamento que não é dela, ela nem sabe dizer. O rosto esquenta, não pela nudez, mas pela intimidade que o bicho de pelúcia denuncia.

Encara os olhos dele e não encontra graça nem reprovação, só uma curiosidade tranquila. Ela atira o elefante mudo p’rum canto, o pobre bate na parede e, tombado, longe de qualquer sentido, padece de barriga para cima, calado.

Theo ri baixo, grave, um som que ela sente mais do que ouve.

Faz seis meses; ela contou as luas, a mesma régua que mede os fluxos naturais do cotidiano e, claro, marca o vencimento dos boletos. Seis meses desde o último homem, que já nem lembra direito o cheiro, seis meses de um corpo posto em segundo plano, atrás da rotina das duas crianças, um menino e uma menina, atrás de reuniões que começam às oito, atrás do cansaço que se acumula e vai cobrando um preço que sabe deve ser pago, e que paga com prazer; aquele outro prazer.

Theo, seis horas antes, estava com outra mulher. Não esconde, ela não pergunta, contudo conta assim mesmo, entre um beijo e outro, sem baixar a voz nem procurar desculpa. Uma amiga, diz ele, um encontro que terminou cedo. Dela só escapa um riso, um espanto genuíno; nesta fase da vida e com a rigorosa contagem das luas, já tantas luas, nada dói, só diverte.

“Seis meses”, ela diz, “contra seis horas, a gente nem joga o mesmo campeonato.”

“Jogamos”, ele responde, a boca já descendo pelo esterno dela, “só que em posições diferentes.”

Ela ainda pensa em revidar, arranjar uma frase à altura, e é nesse instante que ele a interrompe com as mãos, ásperas de marceneiro, precisas nos dedos, eficientes como um cirurgião que sabe de antemão exatamente o que está para fazer.

Não há pressa. Ela tem, ou tinha, até um minuto atrás, pressa de gozo, o prazer da tarefa a cumprir antes que o tempo se acabe. Theo desacelera o próprio corpo contra o dela. Ela solta um palavrão, que não pretendia soltar, mas invariavelmente comparecia naqueles momentos; um verdadeiro grito de guerra. Ele ri de novo, o riso misturado ao resto do que já entrava nela.

Encaixam-se mal no começo. Os corpos, nestas horas, constroem um dicionário próprio: o dela fala uma língua de cautela, o dele, pura língua sem gramática. Porém, um terceiro idioma assume o controle do caminho, feito de ajustes mínimos, o quadril dela buscando o ângulo certo, a mão dele na nuca querendo não perder o controle do destino já riscado. Beatriz esquece que existe telefone, manhã, dois pijamas estampados de dinossauro esperando por ela numa casa a doze minutos dali.

O quarto cheira a serragem e a um perfume que não é o dela nem o de Theo. Sorri sozinha, por dentro. Ele pergunta o que foi. Ela diz “nada, depois conto”. Não contará nunca.

Os golpes desiguais mandam os compassos às favas, e mesmo assim a harmonia vem certa, na cadência que ela reconhece e de que gosta; está estranha, mas é sua. Grita baixo, é o hábito do sussurro que foi sendo treinado em noites de vigiar febre e pesadelo. Theo respira fundo e alto, não tem vergonha da própria voz.

O teto volta a ser só teto, ela sente o peso costumeiro descer de volta sobre o peito. Dois filhos pequenos que crescem rápido demais e vão precisar dela inteira outra vez às sete da manhã. Um coração que jurou, há um ano e meio, nunca mais se oferecer de bandeja para ninguém, porque o que sobrou dela da última vez levou tempo para sarar. E ali, do lado, um homem que trabalha madeira, dorme cedo, ama, e que seis horas atrás estava dentro de outra história que não a dela.

Theo foge, à maneira dele. Não faz mala, não decora endereços, não guarda chave de apartamento algum. Seis horas atrás dormiu em outra cama, amanhã ou depois talvez durma em mais outra, sem culpa e sem planos. Chama isso de leveza. Beatriz olha para ele, o corpo solto, sem pressa de lugar nenhum, e pensa que leveza, levada ao extremo, pesa do mesmo jeito que o resto.

Quer viver, disso tem certeza. Quer o corpo de volta, quer a risada fácil, quer noites como aquela sem prestar contas a ninguém.

Do que não tem certeza é do resto, do que vem depois do gozo, quando a ternura insiste em ficar e pede coisas, pede algo que ela jurou nunca mais dar. Chama o medo de cansaço, de falta de tempo, dos filhos, do trabalho: nomes emprestados. Na verdade existe um receio maior, pode chamar de medo sim; é o mesmo que abrir de novo a porta por onde entrou, da última vez, e que quase a levou junto. De toda sorte, as reflexões traziam o tema sempre recorrente e aparentemente insolúvel: a noite, os corpos colados e cada um a seu modo, sozinho.

Theo estica o braço, pega o elefante caído no canto do quarto e o devolve.

Ela olha o bicho rosa, a trombinha mordida.

Fecha os olhos mas não dorme; lá fora, uma sirene atravessa a rua, longe, indiferente ao quarto, indiferente à trégua, indiferente aos dois.