Ricardo Giuliani

Poesias

A pergunta

Depois da briga,

levo o silêncio.

Se você disse, fico com isso.

É o silêncio que ainda escuta o eco da última frase

e se recusa a emudecer.

Cada casa guarda um desses,

um desses empoeirado num canto.

Quem varre?

A mão na nuca,

o cheiro do café não feito,

o lenço que se perdeu no banco do ônibus.

Uma cidade onde os relógios param às três.

As portas entreabertas,

sinceras, francas.

As sombras atravessam a fresta

e trazem nomes de ninguém.

Mesmo assim,

todos os nomes

é o que chamo em voz alta.

O corpo guarda a arquitetura da ausência,

marcas de cidade recém-parida.

Vício.

Um novo início.

Nada fecho.

Na sala vazia

deixo a cadeira inda quente.

E ao lado, a pergunta:

o que sumiu enquanto você me lia?