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Ricardo Giuliani

Contos

RETRATO PARA INÊS

I

A oferta chegou num fim de tarde de junho, com o minuano batendo na janela como se quisesse entrar e tomar parte na conversa. Sônia ligou, não mandou mensagem, quando o assunto era sério ela ligava, era o código dos dois há vinte anos. Fontana atendeu de alpargata e, como sempre, a cuia esfriando na mão.

— Senta antes — ela disse.

— Tô sentado.

— Não tá. Te conheço. Senta de verdade.

Ele sentou, mais para agradá-la do que por necessidade. Sônia disse o número. Era um número que resolvia a vida de um homem de sessenta e cinco anos: o telhado que pingava na churrasqueira, a parcela do convênio, a pensão pra ex-mulher, os anos que ainda faltavam sem o sobressalto do dia vinte de cada mês. Fontana ouviu, viu o vento sacudir as hortênsias no pátio do vizinho, e riu. Não foi riso de deboche. Foi o riso de quem recebe uma boa notícia que não diz respeito a ele.

— Não.

Do outro lado houve aquele silêncio que Sônia fazia quando estava decidindo entre brigar e rir. Acabou rindo também, mas com raiva.

— Fontana, eu não vou nem comentar. Pensa. Te ligo amanhã.

— Pode ligar. A resposta vai ser a mesma, mas pode ligar, gosto de te ouvir.

Ela desligou. Ele esquentou a água de novo, renovou o chimarrão, e ficou na janela vendo a tarde baixar sobre a Cidade Baixa, os telhados encharcados, a luz cinza que em Porto Alegre, no inverno, não é tristeza, é só o jeito que a cidade tem de ficar quieta. Fontana estava, naquele instante, perfeitamente feliz, e tinha plena consciência de que isso era quase um escândalo.

II

Para entender o escândalo é preciso saber o que estava à venda, por que ele não vendia, e como um homem chega aos sessenta e cinco anos feliz, vindo de uma vida que costuma vergar quem a carrega.

Fontana Brenner era engenheiro. Calculista, desses que não desenham a fachada bonita nem erguem a taça na inauguração, mas desses que dizem, antes de tudo o mais, se a coisa fica em pé. Especializara-se em cálculo estrutural, e durante quarenta anos foi a pessoa discreta a quem os arquitetos mandavam o projeto com a pergunta de sempre, meio envergonhada: isto aqui aguenta? Trabalhava por conta própria, sem escritório com placa, sem sócio, sem secretária; trabalhava com alpargatas, chimarrão gelado, lápis HB e calculadora.

Tinha, há décadas, um modo de cobrar que os colegas achavam loucura e que era, no fundo, a coisa mais sensata que ele já bolara. O preço de um projeto era o número de meses que ele não queria trabalhar depois dele. Funcionava assim. Fontana calculava quantos meses de paz queria para pintar, para ler, para ensaiar com a banda, e punha no orçamento o valor exato que comprava aquele tempo, nem um centavo a mais. Aceitava o projeto, fazia-o bem e rápido, entregava, recebia e sumia pelos meses comprados. Quando o dinheiro acabava, pegava outro. Nunca quis ser rico, quis ser livre. Por isso, enquanto o país inteiro repetia que de arte não se vive, Fontana vivia, não da arte, mas de um arranjo que mantinha a arte fora do alcance do dinheiro, protegida, gratuita, dele. Era talvez o único artista de Porto Alegre a quem os colecionadores não conseguiam assustar com cifra nenhuma, porque ele já tinha comprado, parcela a parcela, ao longo de quarenta anos, a única coisa que queria que o dinheiro lhe desse, o direito de não precisar dele.

O ofício, no fundo, se reduzia a uma pergunta, e Fontana gostava de formulá-la assim aos mais novos, nas raras vezes em que ainda dava aula: por onde a carga desce até o chão? Toda estrutura é uma resposta a isso. O peso do telhado, do andar, da gente, do vento, tudo precisa encontrar um caminho para chegar à terra sem derrubar nada na descida. Calcular é achar esse caminho e garantir que ele aguenta. Fontana sabia traçar o caminho da carga de qualquer prédio da cidade. A própria carga, a que ele mesmo carregava, nunca tinha conseguido calcular, não achava o chão dela, não sabia por onde ela descia; era possível que pintasse por causa disso.

Tocava violão numa banda que mantinha há trinta anos os mesmos quatro, mais ou menos, atravessados por casamentos, divórcios e um enfarte pelo meio, tocando um repertório que não interessava a ninguém além deles num boteco da Cidade Baixa uma vez por mês, e que era, para os quatro, sagrado. Lia o tempo todo, de tudo, sem disciplina. E desenhava e pintava desde sempre, do jeito de quem assobia, sem plateia, sem plano, sem chamar aquilo de carreira. Refletia sobre o dia em que a banda passaria a se chamar quarteto “los três”. Pensava e pensava: “tomara que demore!”

No inverno passado, num fôlego de poucas semanas, um dos tais intervalos comprados com o cálculo de um galpão em Gravataí, encheu um caderno espiralado de capa preta com quinze folhas. E foi esse caderno que o mundo agora queria.

Quem visse as quinze folhas em sequência ficava sem saber o que dizer, e era esse o problema, ou a graça. Havia nus a contorno, gestuais de mulher; flores de pétala mole desenhadas com paciência de botânico; uma cabeça de velho careca encarando de frente, e um Cristo construído quase só de andaime e risco, e um casal dançando borrado a giz, e uma paisagem de beira-rio com igreja branca, e um rosto de gaúcho velho pintado de barba azul, e uma fruteira a pastel, e uma forma vermelha que parecia uma víscera ou um grito. Nada combinava com nada, era como se quinze pessoas diferentes tivessem usado o mesmo caderno.

— Esse é o teu problema, Sônia dizia, e dizia havia anos.

— Tu não tem assinatura. Olha um Iberê, tu sabe que é Iberê do outro lado da rua. Olha um teu, tu não sabe que é teu nem segurando.

Fontana achava que ela estava certa no fato e errada no juízo. Não tinha um estilo porque nunca tinha tido uma vida só. Fora engenheiro e quase músico e meio pintor e três ou quatro homens diferentes em três ou quatro décadas, e amara mulheres que não tinham nada a ver umas com as outras, e morava sozinho há tanto tempo que já não sabia dizer se era por escolha ou por talento. A inconstância das folhas não era falta de coisa alguma. Era ele, inteiro, espalhado. Botar estilo naquilo seria como calcular um homem, reduzi-lo a um caminho só, achar o ponto exato onde ele cede. E Fontana não pretendia ceder em ponto nenhum.

III

A história de como o caderno vazou era idiota, como são quase todas as histórias importantes. Sônia tinha fotografado três folhas no balcão da galeria dela, numa tarde, para mandar a um amigo crítico, só para dizer olha o que o Brenner anda fazendo. O amigo mandou para outro. Em duas semanas havia um colecionador de São Paulo perguntando o preço de uma coisa que não estava à venda e que ele nunca tinha visto pessoalmente, o que, no mundo dos colecionadores, em vez de esfriar, esquenta.

Eram três, ao fim, os interessados: um paulista que falava em e-mails curtos e usava a palavra acervo como quem usa a palavra investimento, e que prometia, com a delicadeza de um trator, valorizar a obra, uma fundação, por intermédio de um sujeito de óculos que veio de avião só para almoçar com Fontana no Gambrinus e explicar, entre uma porção de bolinho de bacalhau e outra, o quanto seria importante para a memória da arte do Sul que aquele conjunto não se dispersasse e, um terceiro, o pior, um colecionador da própria cidade, que Fontana conhecia de vista há trinta anos e que agora o tratava com uma intimidade nova, faminta, telefonando à noite, aparecendo sem avisar, falando baixo como quem propõe outra coisa.

O que os três tinham em comum, e o que Fontana demorou a entender e depois não conseguiu mais desentender, era o verbo. Todos queriam ter. Diziam ver, que precisavam ver o caderno, que mal podiam esperar para ver, mas o que faziam, quando finalmente se sentavam diante das folhas, era calcular. Mediam com os olhos o que aquilo valeria daqui a dez anos, em que parede ficaria, atrás de que vidro, em que leilão. Olhavam o caderno do jeito que ele, calculista, olhara a vida inteira as estruturas dos outros, medindo, pesando, perguntando por onde a carga desce e quanto a coisa aguenta antes de ceder.

E era exatamente o contrário do que ele queria. Porque Fontana, se fosse capaz de dizer em voz alta o seu desejo mais fundo, e não era, levaria a vida sem dizer, diria que queria ser visto. Não o caderno, Ele! Que alguém pegasse as quinze folhas, percorresse aquela bagunça de nus e santos e frutas e vísceras, e em vez de perguntar quanto custa, entendesse: “ah, então é assim por dentro, esse homem”. Que o vissem ali, sem cálculo e sem crachá, sem a redução a nenhuma das vidas que ele tinha vivido, inteiro e desordenado como só se é por dentro. Ser visto e ser tido são coisas que se parecem de longe e que, de perto, se excluem. Vender o caderno seria deixar que o calculassem, que achassem o ponto onde ele cede e pregassem ali um número. Era a forma mais educada de desaparecer.

IV

Fontana gostava de mulheres e gostava de solidão, e nunca tinha conseguido explicar a ninguém, nem a si, como as duas coisas cabiam no mesmo homem.

Houve muitas, ao longo dos anos, e ele se lembrava de quase todas com gratidão e sem saudade. Naquele inverno havia a Marília, que aparecia sem hora marcada, trazia vinho ruim e conversa boa, dormia às vezes, e ia embora de manhã sem nenhum dos dois fazer cena de quem fica ou de quem vai. Era um arranjo que os dois respeitavam porque os dois precisavam dele. Marília, certa vez, folheou o caderno deitada de bruços na cama dele, nua, e parou nos nus.

— Essas aqui sou eu? — perguntou, sem vaidade, com curiosidade científica.

— Não.

— São quem?

Era uma pergunta honesta e ele não tinha resposta honesta.

— Não são ninguém. São umas mulheres que eu inventei pra poder fazer o traço descer daquele jeito.

Marília achou graça e largou o assunto. Mas a pergunta ficou rondando, porque era a pergunta que todo mundo, mais cedo ou mais tarde, fazia diante daquelas folhas, sobretudo diante dos nus e das cabeças de mulher: são quem? Para quem? Como se uma mulher desenhada tivesse obrigatoriamente um endereço. Como se o desejo, para virar linha, precisasse de destinatária. Quem olhava o caderno procurava nele uma mulher escondida, uma musa, uma explicação. Procurava o para quem. E Fontana, que conhecia o caderno folha por folha, sabia que não havia ali nenhuma mulher escondida, e mesmo assim, naquele inverno, por causa de tudo o que estava acontecendo, começou ele próprio a procurar uma.

V

Porque havia, sim, uma mulher. Só que não estava no caderno. Estava em Santa Cruz de Lisboa, e se chamava Inês, e não sabia de nada.

Eles tinham sido próximos uma temporada, fazia tanto tempo que Fontana já não confiava nos detalhes, só na temperatura. Ela era irmã de um amigo que morreu cedo. Apareceu nos meses do velório e do luto, ajudou a esvaziar o apartamento do irmão, e naquelas semanas horríveis os dois riram de um jeito que só se ri em meio à morte. Depois a vida fez o que faz. Ela foi embora atrás de um casamento que deu certo o bastante, pelo menos é o que ela dizia, e ele ficou, os projetos, os anos. Restou o costume de uma mensagem por ano, no aniversário, e outra quando alguém morria, e, de quando em vez, uma musiquinha que ele postava a partir do spotfy. Frases curtas, cordiais, de duas pessoas que se gostam e não se devem nada.

Fontana a amava havia trinta anos e nunca tinha dito. Não por covardia, ou não só. Tinha aprendido, em algum ponto do caminho, que era capaz de amar assim, à distância, em silêncio, sem pedir nada e sem esperar retorno, e que esse amor não lhe doía como deveria doer um amor não dito, ele simplesmente existia, quieto, como um quadro pendurado na parede de um corredor por onde a gente passa todo dia e não olha mais, e que continua lá, e cuja falta, se alguém o tirasse, a gente sentiria no branco da parede. Inês era esse branco. Não era uma ferida, uma arquitetura, quem sabe?

Ela não fazia ideia. Era provável que pensasse nele, quando pensava, como o amigo do irmão, o engenheiro simpático de Porto Alegre, aquele que calculava prédios e pintava nas horas vagas, alguém de quem se gosta no passado. Fontana nunca corrigiria isso. Corrigir seria pôr aquilo à prova, calcular se aguentava, e ele preferia não saber, preferia o branco da parede ao prego e ao vidro.

Mas naquele inverno, com os colecionadores rondando e a pergunta são quem ecoando em cada visita, Fontana se pegou montando uma história que o consolava. A história era esta: ele não vendia o caderno porque o caderno era, de algum modo que ele não sabia explicar, dela. Que aquelas quinze folhas eram uma carta de trinta anos que ele tinha escrito sem endereçar, e que entregá-las a um paulista com a palavra acervo na boca seria trair Inês, trair a única coisa que nele era inteiramente fiel. Gostou da história. Ela explicava a recusa, explicava a felicidade, explicava a solidão, amarrava tudo num laço. As histórias que amarram tudo num laço deviam ser proibidas, porque são quase sempre falsas, e a gente se apega justamente porque são confortáveis como uma mentira boa.

VI

A coisa apertou em agosto. O paulista subiu o número até um lugar obsceno e pôs prazo. A fundação mandou o homem de óculos uma segunda vez, agora com um contrato já impresso, como quem deixa o presente em cima da mesa para que o outro tenha vergonha de devolver. O colecionador da cidade telefonou às onze da noite, a voz mole de uísque, e disse uma frase que Fontana não esqueceu: “Brenner, ninguém vai te ver melhor do que eu vou te ver naquela parede”. E Sônia, coitada, partida ao meio, porque uma comissão daquelas mudava a vida da galeria dela também, mas porque o conhecia havia vinte anos e sabia, no fundo, o que ele ia responder, e sofria por ele e por ela ao mesmo tempo.

— Eu não tô te empurrando — ela disse, numa tarde, na galeria, com as três folhas sobre o balcão de vidro onde tudo tinha começado.

— Tô te pedindo pra pensar com a cabeça e não com o umbigo. Tu tem sessenta e cinco anos, Fontana. O telhado. O convênio. E não é traição nenhuma. Vender uma obra não é vender o sujeito que a fez.

— Não é? — ele perguntou, e era pergunta de verdade.

Sônia não respondeu na hora. Os dois olharam as folhas. Estava ali o gaúcho de barba azul, de olhos baixos, o casal dançando, um dos nus. Sônia, que vendia arte há trinta anos e não era nenhuma sentimental, disse por fim, baixinho:

— Talvez seja, no teu caso. Tu sempre fez questão de não separar as coisas. Esse é o teu charme e é o teu prejuízo.

Fontana foi para casa a pé, o que em Porto Alegre, no fim de uma tarde de agosto, com o vento vindo do rio, é uma forma de pensar. Atravessou o Parque, passou pela Redenção quase vazia, os galhos pelados, um ou outro corredor teimoso. Ia decidido a não vender e incomodado com a própria decisão, porque a história do laço, o caderno é da Inês, já não estava segurando. Tinha uma rachadura. Ele a sentia, sem querer sentir.

Chegou em casa, acendeu a luz da sala e fez uma coisa que não fazia há meses; sentou na poltrona com o caderno no colo e olhou as quinze folhas em ordem, devagar, como se fosse um dos colecionadores. Como se nunca as tivesse visto, como se quisesse comprá-las.

VII

E foi olhando assim, de fora, fingindo-se de outro, que a rachadura abriu.

Ele procurou Inês nas folhas. Procurou de verdade, com método, porque queria que a história fosse verdadeira. Olhou os nus um por um esperando reconhecer um ombro dela, uma curva que a memória tivesse guardado dos meses do velório, quando ele a viu chorar e rir e não a viu nunca nua e mesmo assim a teria desenhado de olhos fechados se desenho fosse aquilo. Não estava lá. Os nus eram de ninguém, eram da mão dele descendo pelo papel, eram mulheres que ele inventara para o traço, como dissera à Marília sem perceber que estava dizendo a verdade mais exata da sua vida. Olhou as cabeças de mulher, não era ela. O gaúcho, a igreja, o Cristo, a fruteira, a coisa vermelha, sem carta nenhuma, sem endereço. Nada, em parte alguma daquelas quinze folhas, a mulher que ele amava há trinta anos.

E aí, em vez do baque que ele esperava, veio uma coisa esquisita, larga, quase um alívio com vertigem dentro. Ele não desenhava para ela. Nunca tinha desenhado. A mão que fazia aquilo e o homem que amava Inês eram o mesmo homem e não trabalhavam no mesmo quarto, não se encontravam, não se deviam endereço. O amor estava ali, intacto, na parede do corredor, o branco que ele nunca tiraria. E o caderno estava aqui, no colo, e não tinha nada a ver com aquele branco. Eram duas verdades inteiras dele que nunca tinham precisado ser a mesma verdade. Ele as imaginara secretamente ligadas, como todo mundo imagina, como o leitor de uma história imagina que a musa explica o quadro e o quadro confessa a musa, não! Não confessava. Ele amava de um lado e desenhava de outro, e era um só homem, e os dois lados não se deviam satisfação.

Era isso, então, não há laço, somente um homem disperso que se recusava a ser amarrado pelo mercado, que lhe queria pôr preço pela história bonita, que queria pôr sentido, e até por ele mesmo, que naquele inverno tinha tentado, com a melhor das intenções, pôr Inês como a viga-mestra de tudo, a peça que faria a construção inteira ter um motivo. Não fazia. E estava certo que não fizesse. A inconstância das folhas, que Sônia chamava de falta de assinatura, era exatamente isto: a prova, no papel, de que ele era muitos e não devia coerência a ninguém, nem ao amor da própria vida.

Porque um caderno que não é para ninguém é a única coisa que é inteiramente de quem o fez. Uma estrutura existe para levar a carga a algum lugar, o peso desce pelos pilares, encontra a fundação, chega ao chão, se dissipa, e é nisso que um cálculo dá certo: fazer a força chegar a um destino sem derrubar nada na descida, fluir, se esvair na profundidade da terra. Aquele caderno não levava carga nenhuma a lugar nenhum. Não tinha pilar nem fundação, não tinha chão e não tinha endereço. Era o oposto exato de tudo o que ele calculara durante quarenta anos, e era precisamente por isso que era dele. No instante em que tivesse um destinatário, uma mulher, um colecionador, uma parede, um acervo, deixaria de ser ele e passaria a ser uma mensagem, e mensagem se entrega, mensagem tem para onde ir, tem enreço. Aquilo não ia a lugar nenhum. Era um homem inteiro, parado, sem o ponto por onde a carga desce, sem o lugar onde a coisa cede. Vender seria entregar a um estranho o direito de calcular onde Fontana Brenner terminava, de achar o ponto de ruptura e pregar ali um preço. E Fontana, aos sessenta e cinco anos, com o telhado pingando e a felicidade indecente intacta, não pretendia ceder em ponto nenhum.

VIII

Ligou para Sônia na manhã seguinte. Cedo, do jeito que ela ligava quando era sério, devolvendo o código.

— É não — disse. — É não pros três, e é não pra sempre, e eu quero que tu pare de sofrer por mim, porque eu não tô sofrendo, e isso é o que ninguém consegue acreditar.

Sônia suspirou o suspiro de vinte anos.

— Eu sei que é não. Eu já sabia ontem no balcão. — E depois, porque era boa e porque era curiosa: — Posso te perguntar uma coisa? Por que tu fez essas folhas, afinal? Pra quê? Pra quem?

Era a pergunta, a pergunta de todo mundo, a de Marília na cama, a dos colecionadores no almoço, a que o leitor de uma vida sempre faz porque precisa de um para quem para fechar a conta. Fontana olhou pela janela. O minuano tinha parado de noite, e a manhã estava limpa, daquele azul lavado que Porto Alegre dá de presente, uma vez ou outra, depois de uma semana de puro cinza.

— Pra ninguém — ele disse, e era a primeira vez que dizia isso sem que doesse, e a primeira vez que dizia isso sabendo que era a coisa mais verdadeira e mais livre que tinha para dizer.

— Fiz pra ninguém. Por isso é meu.

Sônia ficou quieta do outro lado, e Fontana entendeu que ela tinha entendido, ou pelo menos que tinha parado de querer que ele entendesse outra coisa. Desligaram. Ele guardou o caderno na gaveta de sempre, sem cerimônia, embaixo das contas e dos óculos velhos, no único acervo do mundo onde aquilo estava seguro. Pegou o violão encostado na parede e dedilhou um pouco, baixinho, uma música que andava montando e que ainda não tinha forma. Na quinta teria ensaio, os mesmos de sempre, o mesmo boteco.

Depois fez o chimarrão da manhã e sentou na janela. Pensou em Inês, como pensava quase todo dia, sem urgência, o branco no fim do corredor. Ela continuava nem tão longe, continuava sem saber, continuava amada do jeito quieto que não pede nada e não acaba. Em algum momento daquele dia talvez lhe mandasse uma mensagem curta, ou não, fazia tempo que não morria ninguém e o aniversário dela era só em março. Não havia o que dizer, na verdade nunca houve, e estava bom assim. O amor dele por ela e as quinze folhas na gaveta nunca se encontrariam, e eram, os dois, inteiramente verdadeiros, e ele era um homem só carregando as duas coisas sem precisar fundi-las numa só.

Lá fora a manhã seguia azul. Fontana tomou o mate, viu a luz bater no telhado molhado do vizinho, e ficou feliz outra vez, aquela felicidade dele, sem testemunha, que ninguém comprava e ninguém via, e que talvez fosse a única obra que ele de fato tinha feito para guardar.