Ricardo Giuliani, 2026.
Texto teatral em dois atos
PERSONAGENS
RENATA — Advogada idealista, 34 anos
CÁSSIO — Político inexperiente, 29 anos, primeiro mandato
EUCLIDES — Deputado estadual experiente, 71 anos, último mandato
O POVO — Coro. Fala sempre junto, às vezes em fragmentos sobrepostos, às vezes em uníssono preciso
NOTA DE ENCENAÇÃO
O palco é dividido em dois planos. No fundo, telas apagadas. Os terminais da IA SÓLON, o sistema de gestão pública que governa a cidade desde 2041. No primeiro plano, uma mesa de madeira com uma lamparina a gás. Há livros físicos empilhados de forma irregular. A água começa a aparecer como luz azul no chão, sobe lentamente durante toda a peça. O POVO ocupa as laterais e o fundo, nunca sentado, sempre em movimento lento como quem flutua.
ATO I — A ÁGUA QUE SÓLON NÃO PREVIU
A chuva começa. As telas piscam. O POVO murmura.
O POVO (em coro baixo, quase respiração)
A água veio sem aviso.
A água veio sem protocolo.
A água não pediu autorização ao sistema.
CÁSSIO (olhando para as telas apagadas, nervoso)
Sólon está tentando recalibrar. O algoritmo de gestão de crise está processando. Precisamos aguardar a janela de resposta.
RENATA
Quanto tempo tem uma janela de resposta, Cássio?
CÁSSIO
Entre quarenta minutos e uma hora.
RENATA
Há crianças no terceiro setor com água na cintura. Quarenta minutos é uma eternidade! Vão morrer afogadas.
CÁSSIO (genuinamente perdido)
Mas o protocolo… e pode levar até uma hora eu disse!!!!
EUCLIDES (sem olhar para as telas, abrindo um livro)
Esqueça o protocolo.
Pausa. CÁSSIO o olha como se tivesse ouvido um palavrão.
CÁSSIO
O senhor está sugerindo que operemos fora do sistema integrado?
EUCLIDES
Estou sugerindo que você olhe pela janela, rapaz.
O POVO avança um passo.
O POVO
Olhe pela janela.
Olhe pela janela.
Não há dashboard que mostre o que os olhos mostram.
Não há!!!
Dashboard não mostram o que os olhos mostram
O POVO recua um passo
O POVO avança dois passos
RENATA (pegando um dos livros)
Isto é um relatório da enchente de Porto Alegre. 2024. Papel. Alguém teve o bom senso de imprimir. Aqui tem tabelas, tem recortes de jornal, artigos escritos por pessoas, análises…
Puta que pariu, tudo tão antigo, tudo tão real…
EUCLIDES
Eu mandei imprimir. Em 2041, quando instalaram Sólon, eu mandei imprimir tudo que parecia perecível. Me chamaram de retrógrado. Velho atrasado
EUCLIDES caminha desorientado pelo palco, coça a cabeça e repete, primeiro em voz alta, depois, quase mastigando as palavras
EUCLIDES
Velho… retrógrado… Velho retrógrado, sim, isso, isso…
CÁSSIO (quase aos berros)
E como isso nos ajuda agora?
EUCLIDES (no centro do palco)
Nos ajuda porque os mortos de 2024 já nos ensinaram o que fazer. Se formos humildes o suficiente para aprender com quem não tinha algoritmo nenhum. Ou, lendo o que li, até tinham, só eram incompetentes, ou quem sabe autossuficientes, para nos usá-los ou para neles acreditarem quando ainda dava para acreditar.
RENATA (lendo)
“Abrigos improvisados devem priorizar a circulação de ar sobre a capacidade numérica. O erro de 2024 foi a superlotação dos ginásios.”
(levanta os olhos)
Temos os ginásios do setor norte. Sólon os usa como centros de distribuição automatizada.
CÁSSIO
Não podemos esvaziar os centros de distribuição sem autorização de Sólon.
EUCLIDES
Sólon está debaixo d’água, Cássio.
As telas emitem um chiado e apagam definitivamente. O POVO recua um passo, depois avança três. Os passos são em marcha forçada. Batendo no piso e criando sons de trovões.
O POVO
O sistema caiu.
O sistema caiu.
Nós já sabíamos, o sistema sempre cai
Quando a terra decide lembrar que existe, o sistema sempre cai.
CÁSSIO (em pânico contido)
Isso não estava previsto. A resiliência de Sólon foi testada para eventos até nível sete na escala criada por ele mesmo. Sólon não erra, o algoritmo não erra!
Sólon (em tom de procura)
Sólon (em tom de desespero)
Sólon (em tom de resignação)
RENATA
A natureza não leu a escala, Seu bosta.
EUCLIDES (fechando o livro, com autoridade calma)
Escutem. Tenho setenta e um anos. Participei de três gestões de crise sem inteligência artificial e quatro com ela. Sabem qual a diferença?
CÁSSIO
A eficiência:
EUCLIDES
A responsabilidade. O Compromisso. A angústia que jogava o coração pela boca. O medo do erro e da cagada.
(aproximando-se da platéia a passos lentos) Sem o sistema, alguém tem de assinar embaixo. Nós os antigos, os muitos antigos chamávamos de jamegão.
Alguém tem de olhar nos olhos do outro e dizer: fiz isso por você isso e porque aquilo ou porque simplesmente é isso que deve ser feito e assumo a responsabilidade de dar a ordem. Depois, a depender dos resultados, temos que dizer errei nisso, errei naquilo, ou não sei porque errei, mas errei por vocês.
A IA nos liberou das duas coisas. (Volta para o fundo do palco, se aproxima do POVO e o POVO recua e se ajoelha)
E quando ela apaga… estamos nus.
O POVO (sussurra)
E quando ela apaga
A IA apaga
A IA nos apaga
Estamos nus
Silêncio. A luz azul no chão sobe um centímetro.
ATO II — AS DECISÕES QUE DOEM
RENATA abre outro livro. EUCLIDES escreve à mão numa folha. CÁSSIO olha para suas próprias mãos como se fossem instrumentos desconhecidos.
CÁSSIO
Há estoques de provisões no centro logístico sul. Sólon os distribui por cálculo de necessidade individual. Cada cidadão tem sua cota biométrica. Se distribuirmos sem o sistema… haverá injustiça na distribuição.
RENATA
Haverá injustiça. Sim.
CÁSSIO
Então não podemos!
RENATA
Haverá menos injustiça do que deixar as pessoas sem comer enquanto esperamos um servidor reiniciar.
CÁSSIO (com sinceridade angustiada)
Mas eu acredito em distribuição equitativa. É meu princípio fundamental. Fui eleito por isso.
EUCLIDES
Você foi eleito para servir pessoas, não para honrar princípios abstratos enquanto as pessoas afundam.
O POVO
Nos deem o pão.
Não nos expliquem o pão.
A fome não faz dialética.
A fome apenas é.
Nos deem o pão
CÁSSIO (virado para o POVO, genuíno)
Mas se distribuirmos sem critério, os mais fortes pegarão mais. Sempre foi assim. É exatamente contra isso que sempre lutei,
O POVO (quebrando o uníssono, vozes sobrepostas)
— sempre foi assim
— e ainda assim sobrevivemos
— o imperfeito nos manteve vivos
— mais que a perfeição prometida
RENATA
(ao CÁSSIO, com dureza afetuosa)
Você quer um mundo justo. Eu também. Mas justiça é uma construção lenta, Cássio. O que está diante de nós agora é outra coisa. É emergência. E emergência tem sua própria moral.
CÁSSIO
Qual moral?
RENATA
A de que o possível é melhor que o ideal ausente.
Pausa longa. CÁSSIO olha para EUCLIDES.
CÁSSIO
O senhor já tomou decisões assim? Que contrariavam o que o senhor acreditava?
EUCLIDES
Toda semana, durante quarenta anos.
CÁSSIO
E como o senhor… como se faz isso?
EUCLIDES (com a melancolia de quem sabe)
Você faz. E depois carrega. Não há como fazer diferente. A leveza que Sólon nos prometeu era isso — não ter de carregar. Mas o peso é o que nos mantém no chão. Sem ele, flutuaríamos. E quem flutua não governa nada.
RENATA deposita o livro na mesa. Olha para os dois.
RENATA
Então decidimos. Os ginásios serão abertos. As provisões, distribuídas sem cota individual. Euclides assina como deputado. Cássio assina como representante do executivo municipal. Eu assino como testemunha legal.
CÁSSIO (depois de uma pausa que dura o peso de uma vida)
Assino.
O POVO (uníssono, pela primeira vez solene)
Alguém assinou por nós.
Alguém escolheu errar por nós.
Isso também é uma forma de amor
que esquecemos que existia.
INTERLÚDIO — O LIVRO DOS ANTIGOS
A água baixa um centímetro. EUCLIDES está sozinho no palco com a lamparina. Folheia livros.
EUCLIDES (para si, lendo fragmentos em voz alta)
Camus escreveu… (procura) …aqui: “No meio do inverno, descobri que havia em mim um verão invencível.”
(fecha o livro)
Ele escreveu isso depois de uma praga. Não de uma enchente. Mas a água e a doença falam a mesma língua — a língua do que não pode ser administrado, apenas atravessado.
O POVO entra silenciosamente, senta ao redor dele no chão.
O POVO (um único representante se destaca, fala por todos)
Deputado. Quando Sólon voltar… o senhor acha que vai ser diferente?
EUCLIDES
(longa pausa)
Não sei se vai voltar.
O POVO
E se voltar?
EUCLIDES
Então teremos de decidir o que fizemos com o que aprendemos. Se aprendermos.
O POVO (coletivo novamente)
E se não aprendermos?
EUCLIDES
(com um sorriso triste)
Então também seremos humanos. De um jeito que não nos orgulha, mas que reconhecemos.
ATO FINAL — A ÁGUA BAIXOU, A PERGUNTA PERMANECE
As telas do fundo começam a piscar. Um sinal de reinicialização. RENATA e CÁSSIO entram. Os três ficam diante das telas que tentam voltar à vida.
CÁSSIO
Sólon está reiniciando. Estimativa de retorno completo: seis horas.
RENATA
Seis horas.
CÁSSIO
(hesitante)
Então… voltamos ao protocolo?
Ninguém responde imediatamente.
EUCLIDES
Quando eu era jovem, havia um debate que achávamos definitivamente superado: o que é insubstituível no ser humano? Concluímos, na época, que era a criatividade. Depois a empatia. Depois o julgamento moral. A cada resposta, a tecnologia aparecia dez anos depois e dizia: também faço isso.
RENATA
E o que ficou?
EUCLIDES
A responsabilidade de errar. Ninguém conseguiu automatizar isso. A IA distribui consequências. Não carrega culpa. E culpa… culpa é o que nos faz rever. É o motor de tudo que chamamos de civilização.
CÁSSIO
(olhando para as telas)
Se Sólon voltar… eu não quero voltar ao que era antes.
RENATA
Ninguém vai perguntar o que você quer, Cássio. O sistema vai perguntar se você autoriza a retomada dos protocolos.
CÁSSIO
E se eu não autorizar?
RENATA
Então outra pessoa autorizará. Ou ninguém autorizará. Ou todos autorizarão e chamarão isso de democracia.
O POVO avança ao centro pela primeira vez. Fica entre os três personagens e as telas.
O POVO
Nós sobrevivemos sem Sólon por setenta e duas horas.
Brigamos pela comida. Partilhamos a comida.
Choramos juntos. Roubamos juntos.
Rezamos para deuses que o sistema havia catalogado como superstição.
Nós fomos, durante setenta e duas horas,
o que sempre fomos
antes de delegar a outrem
a tarefa de saber o que precisávamos.
A pergunta não é se o sistema volta.
A pergunta é:
quem somos nós quando ele está aqui?
E quem somos nós quando ele se vai?
E se a resposta for a mesma —
o que isso diz de nós?
As telas acendem completamente. A voz sintética de SÓLON ressoa:
SÓLON (voz off, sem afeto, sem ironia)
Reinicialização completa. Todos os protocolos restaurados. Bem-vindos de volta.
Os três personagens se olham.
O POVO não se move.
A lamparina ainda está acesa.
Esta peça não tem moral. Tem apenas a pergunta que a água deixou quando baixou: o que fazemos com o que sabemos sobre nós mesmos, agora que sabemos?
silêncio, cada um carregando o peso exato da sua própria vida — nem mais, nem menos.